Português – Strategic Culture Foundation https://strategic-culture.su Strategic Culture Foundation provides a platform for exclusive analysis, research and policy comment on Eurasian and global affairs. We are covering political, economic, social and security issues worldwide. Wed, 11 Mar 2026 15:05:57 +0000 en-US hourly 1 https://strategic-culture.su/wp-content/uploads/2023/12/cropped-favicon4-32x32.png Português – Strategic Culture Foundation https://strategic-culture.su 32 32 John Dee: O feiticeiro celta que inventou o Império Britânico https://strategic-culture.su/news/2026/03/11/john-dee-o-feiticeiro-celta-que-inventou-o-imperio-britanico/ Wed, 11 Mar 2026 16:01:13 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=891077 O Império Britânico é a invenção de um feiticeiro celta que se comunicava com “anjos” um tanto esquisitos e acreditava que a Rainha Elisabete restauraria e superaria o império mítico do Rei Artur.

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Na ilha da Grã-Bretanha há três países: Inglaterra, Escócia e País de Gales. Nos tempos do Império Romano, a Grã-Bretanha, chamada de Britânia, era ocupada por britânicos (ou bretões). Daí o nome da ilha. Por que existe essa divisão de países? Durante a Idade Média, tribos bárbaras saíram da atual Dinamarca e da Saxônia para conquistar a Grã-Bretanha e expulsar os britânicos, um povo celta, de suas terras. Eram os anglos e os saxões, que se misturaram entre si e deram origem à Inglaterra, ou Terra dos Anglos. Uma parte dos britânicos expulsos foi para um pedaço da França que ganhou o nome de Bretanha, fazendo com que o nome Grã-Bretanha se tornasse conveniente para diferenciar a grande ilha da terra continental dos bretões. Outra parte ficou encurralada no diminuto País de Gales, a terra de onde o Rei Artur, cristão, tentava resistir e reconquistar a terra perdida para os bárbaros infiéis.

Ora, dado o insucesso do pobre rei celta, por que será que a Inglaterra resolveu criar, no período elisabetano, o Império Britânico? E não, digamos, um Império Inglês?

A resposta está na mitologia em torno da fundação da Inglaterra. Ainda na Alta Idade Média, uma obra anônima intitulada Historia Brittonum alegava que o primeiro rei britânico havia sido um certo Brutus de Troia, que era descendente de Enéas, mítico fundador de Roma. No século XII, um clérigo galês com muito talento literário chamado Godofredo de Monmouth fez as vezes de historiador com a obra Historia Regum Brittaniae, na qual descreve até a noite de amor na qual o Rei Arthur foi concebido. Agora Arthur era um rei britânico descendente de Enéas e de Brutus, que nomeia a ilha como Britânia em homenagem a si próprio. Godofredo inventou também uma porção de conquistas nórdicas para Arthur.

Nos albores da modernidade, a mitologia britânica, inventada na Idade Média, ganha uma importância política sem precedente, com a coroação do galês Henrique VII em 1485 como Rei da Inglaterra. Era o primeiro rei da problemática dinastia Tudor – e os reis Tudor, por serem de origem galesa, serão transformados em descendentes do Rei Arthur, de Brutus de Troia e, como não, do fundador de Roma.

Para complicar ainda mais a coisa, há a Reforma: Henrique VIII, filho de Henrique VII, rompe com a Igreja Católica na década de 1530, porque não aceita continuar casado com a esposa que não lhe dera um herdeiro varão. Na mesma época, o reformador John Bale (1495 – 1563), pioneiro em apresentar Roma como Babilônia e o Papa como o Anticristo, já jurava que os antigos britânicos tinham um cristianismo mais puro do que o dos romanos; que os britânicos sempre combateram Roma e que os Tudor são legítimos herdeiros do Rei Artur, tendo portanto a obrigação de combater Roma, sob pena de serem punidos por Deus.

Para os fanáticos protestantes do período, combater Roma poderia significar algo relativamente simples como purgar a Igreja Anglicana de coisas consideradas papistas. (Tanto que centenas de puritanos, frustrados com o governo da Rainha Elisabete, iriam embora para América por acreditarem que Deus iria destruir a Inglaterra por causa disso. A destruição do papado, acompanhada pelos maiores cataclismos, estava prevista para 1650.) Mas nessa época de loucura generalizada, nem todos os loucos eram de um tipo pio. E o louco que nos interessa é um louco ocultista chamado John Dee (1527 – 1609).

Mais um império mundial

Já vimos em textos anteriores que, nos séculos XVII, rondava em meios influenciados pela cabala a ideia de que um novo império mundial estava na iminência de surgir, junto com uma nova religião ecumênica e o Milênio. Na maioria das versões, o novo imperador liberta Jerusalém dos turcos e governa o mundo de lá. No seiscentos, destaquei Cristina da Suécia e Antonio Vieira como adeptos de La Peyrère, que a seu turno repetia o quinhentista Postel. No esquema destes últimos, os franceses são o povo eleito, e um rei francês iria libertar Jerusalém dos turcos, instalando lá os judeus. Para Antonio Vieira, o povo destinado ao Quinto Império do mundo era o português, liderado por D. João IV, que cumpre as profecias do Bandarra e ressuscitará para levar Portugal à glória. Ora, em relação à França e Portugal, a Inglaterra tinha a vantagem de ter no trono uma descendente do próprio Enéas!

Na Inglaterra, John Dee, que chegou a conhecer Postel, foi o mentor do “Brytish Impire”, do Império Britânico. Ele era filho de galês e conselheiro da Rainha Elisabete desde quando esta ascendeu ao trono em 1558. Na verdade, aos 20 anos o jovem Dee já era admirado dentro e fora da Inglaterra por seus avançados conhecimentos matemáticos.

Sobre a consultoria, vale citar um artigo desclassificado da NSA: “Como consultor do governo, era excelente em matemática, criptografia, ciência natural, navegação, biblioteconomia e, acima de tudo, nas ciências que mais recompensavam naqueles dias: astrologia, alquimia e fenômenos psíquicos. Ele era, sozinho, uma Rand Corporation para o governo Tudor de Elisabete”. A Rand Corporation é uma organização privada de financiamento obscuro que subsidia a inteligência militar dos Estados Unidos com pesquisas científicas e sociais.

Não é possível exagerar a importância de John Dee para a coroa britânica. Por isso, o relativo silêncio da academia sobre ele é algo digno de nota. Por incrível que pareça, o âmbito no qual é mais fácil encontrar escritos e informações sobre Dee é o esoterismo. Assim, é relativamente fácil descobrir que John Dee conversava com “anjos” usando apetrechos como um espelho asteca, uma bola de cristal, tabuleiros estrelados (apetrechos expostos no Museu Britânico), mais o auxílio do médium Edward Kelley – e que a parceria durou até ambos obedecerem às ordens de um “anjo” de trocarem de esposas. Difícil é descobrir que essa figura excêntrica foi tão importante na política.

As grandes crenças de Dee conexas com o Império

Uma das poucas obras dedicadas à vida política e filosófica de John Dee é John Dee: The World of an Elizabethan Magus, de Peter French. Na obra, vemos que John Dee acreditava na mitologia britânica, de modo que a Rainha Elisabete descendia do fundador de Roma através o Rei Arthur.Vale destacar que a mitologia britânica já havia sido refutada pelo humanista italiano Polidoro Virgílio na primeira metade do século com a obra Anglica Historia. No entanto, além de acreditar na lenda, Dee a ampliava, colocando o Rei Arthur como líder de um Império Britânico colossal ao qual a Rainha Elisabete tinha direito.

Em algum momento entre 1578 e 1580, Dee entregou à rainha o documento Title Royall to… foreyn Regions [Direito real a… regiões estrangeiras] nas quais, por ser descendente de Arthur, Elisabete tinha direito à “Atlântida” (era como Dee chamada a América), Islândia, Groenlândia, bem como às ilhas fantasmas de Friseland e Estotiland (que eram mencionadas na Viagem dos Irmãos Zeno, uma obra medieval publicada na Renascença).

Da década de 1550 até a década de 1580, Dee foi a principal liderança das navegações inglesas. Isso se deve tanto a um fator ideológico quanto a um fator prático. O fator prático é que a Inglaterra, antes mesmo da Reforma protestante, passava por um espírito reformista erasmiano que visava a combater a influência da Idade Média na universidade e substituí-la por beletrismo. Com a adesão da Inglaterra ao protestantismo, essa tendência se aprofundou, e no breve reinado (1547 – 1553) de Eduardo VI (o herdeiro homem tão desejado por Henrique VIII), os puritanos invadiram as universidades e destruíram os escritos identificados com o “papismo”. Para piorar, a matemática era associada com o ocultismo. Assim, grosso modo, era como se as universidades inglesas só tratassem de belas letras e apenas o excêntrico mago John Dee fosse capacitado para tratar de coisas práticas como a navegação.

Quanto à razão ideológica, Dee acreditava que a Rainha Elisabete deveria liderar um Império Britânico, e que tal império deveria se dar pela supremacia naval acompanhada por uma grande atividade mercantil. Essa é a descrição do Império Britânico tal como ele entrou para a história, mas ela reflete sobretudo o século XIX. Na época de Dee, não exisitam nem colônias inglesas na América, mas ele achava que um tal Lorde Madoc, Príncipe de Gales do Norte, havia construído uma “colônia” perto da Flórida e por isso a Rainha Elisabete tinha direito à “Atlântida”.

Na época de Dee, a os ingleses inventaram sistema de chartered companies, tão aproveitado pelos holandeses, no qual o Estado dava a uma companhia comercial o monopólio das relações comerciais com uma região. (Já escrevi em maior detalhe sobre isto aqui.) Assim, os projetos navais mais imediatos de Dee incluíam as expedições da primeira chartered company inglesa pelo Ártico (buscava-se uma rota da Inglaterra para o Oriente através do Ártico), expedições para o Canadá (se Humphrey Gilbert não tivesse naufragado, Dee teria direito a terras no Canadá), ou a circunavegação de Drake (a segunda circunavegação da História, que se seguiu à de Fernão de Magalhães).

Navegações de tão grande escopos eram, por fim, necessárias porque a Rainha Elisabete estava predestinada a liderar um império mundial, sem comparação com todos os precedentes: o “Incomparable Brytish Impire”, no inglês da época.

Assim, pois, temos que o Império Britânico é a invenção de um feiticeiro celta que se comunicava com “anjos” um tanto esquisitos (pois recomendavam troca de casais…) e acreditava que a Rainha Elisabete restauraria e superaria o império mítico do Rei Artur.

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O lado escuro da Casa de Windsor https://strategic-culture.su/news/2026/03/10/o-lado-escuro-da-casa-de-windsor/ Tue, 10 Mar 2026 18:01:39 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=891056 Há algo de podre fluindo nas profundezas do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

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A prisão de Andrew Mountbatten-Windsor por suas associações ao escândalo Epstein está repleta de aspectos peculiares, tanto num sentido simbólico quanto num sentido histórico. A prisão foi realizada no dia do 66º aniversário de Andrew, em 19 de fevereiro de 2026, 666 dias depois daquele estranho evento em Londres, em 24 de abril de 2024, no qual um cavalo branco ensanguentado se soltou e cavalgou pelas ruas da cidade. Coincidência? Quem sabe?

A acusação, especificamente, envolve inúmeros relatos e evidências, deduzidos a partir dos e-mails de Epstein e de depoimentos de testemunhas, de que Andrew teria participado, acompanhado e colaborado no abuso sexual de mulheres de diversas idades, inclusive meninas potencialmente pré-púberes, e na tortura, também, de crianças e adolescentes – tortura com conotação ou contornos sexuais. Definitivamente, um comportamento atroz e repulsivo.

Andrew, que não é mais príncipe, duque, conde ou barão, tendo perdido todos os seus títulos e os direitos a eles associados, não obstante segue sendo irmão do Rei Carlos III, atual soberano do Reino Unido.

Se estamos nos referindo a polêmicas envolvendo a família real britânica, porém, a figura de Carlos III nos remete rapidamente à estranha morte da princesa Diana, que por um tempo foi esposa do rei britânico quando ele ainda era o príncipe de Gales.

Diana foi princesa de Gales e esposa do atual Rei Carlos de 1981 até 1996, quando se divorciou dele. Nunca saberemos os motivos reais do divórcio, para além das explicações dadas publicamente, as quais passam, por exemplo, por traições do príncipe, bem como pressões constantes da família real sobre ela. Mas aí então há aqueles que insistem que parte das tensões de Diana com a família real envolve segredos muito mais profundos sobre os quais a princesa teria tido conhecimento, incluindo aí o envolvimento de membros da família real com pedofilia e abuso sexual.

Não temos como ter certeza sobre qualquer coisa desse tipo, mas a amizade de Jimmy Savile com membros da família real britânica é, certamente, desconcertante. Jimmy Savile, falecido em 2011, foi um DJ e personalidade midiática britânica que trabalhava na estatal BBC. Mas ele é mais conhecido como sendo um pervertido aberrante que teria abusado sexualmente de centenas de crianças ao longo de décadas. Muito convenientemente, a mídia britânica esperou o falecimento de Savile para expor os seus “podres”. Quase como se todos já soubessem de tudo…

Savile teria conhecido pessoalmente o rei Carlos, quando ele ainda era príncipe, nos anos 70 do século XX, em eventos de caridade. Mas ele rapidamente teria se tornado surpreendentemente íntimo da família real, atuando como conselheiro em inúmeros temas. Segundo Diana, Carlos à época via Savile quase como um guru, um mentor. Savile chegou a dizer, porém, que ele conhecia a família real britânica há ainda mais tempo, desde os anos 60; tendo sido introduzido nos negócios da família real pelo lorde Louis Mountbatten, ex-governador de Burma…e notório pedófilo com predileção por menininhos.

Savile, porém, não era apenas um “consumidor”, ele era também um “fornecedor”. Pelo menos é o que diz seu sobrinho, Guy Marsden, que afirma que Savile organizava festas orgiásticas nas quais o diferencial era a “oferta” de crianças – meninos e meninas – a membros da elite britânica. O sobrinho de Savile diz crer que a maioria das crianças vinha de orfanatos e abrigos. Isso situa Savile numa função semelhante – ainda que talvez de menor envergadura – a Jeffrey Epstein. Savile, aparentemente, não era tão próximo de Andrew quanto ele era do príncipe de Gales, mas o próprio Andrew, numa entrevista infame realizada em 2019, afirmou ter passado muito mais tempo com Savile do que com Epstein.

Retornando a Louis Mountbatten, o tio-avô do rei Carlos III, além de amigo de Jimmy Savile, recentemente alguns vazamentos de arquivos levaram ao conhecimento público o fato de que ele teria abusado de dezenas, ou mesmo centenas de meninos. Uma parcela dos abusos teria ocorrido na Irlanda do Norte, no lar de crianças de Kincora, em Belfast – local em que o orfanato, aparentemente, servia como “bufê” de crianças para membros da elite política e militar britânica, tudo operado pelo MI5. O orfanato foi fechado em 1980, 1 ano após o lorde Mountbatten ser justiçado pelo IRA.

Não há muitos outros escândalos envolvendo pedofilia em conexão com a família real britânica, mas nem por isso deixa de haver outros escândalos sexuais graves.

Se voltarmos ainda mais no tempo, para o final do século XIX, chegaremos à época dos famosos assassinatos de Whitechapel. Canonicamente, 5 mulheres foram assassinadas, com o mesmo modus operandi, por um homem que tornou-se notório no folclore macabro como “Jack o Estripador”. Ninguém nunca foi preso, nenhum culpado foi descoberto, e as teorias abundam.

Uma das mais notórias, é a teoria que conecta os assassinatos à figura do príncipe Alberto Vítor, Duque de Clarence. Alberto, cuja reputação já foi historicamente afetada pela revelação de que ele frequentava um bordel masculino na rua Cleveland, em Londres, passou a ser considerado, com o passar do tempo, o principal suspeito de ser o notório serial killer. O seu conhecimento de caça seria suficiente para dar conta da parte técnica das mortes. Ademais, recentemente ficou comprovado que ele padecia de sífilis e/ou gonorreia, doenças sexualmente transmissíveis que, se não tratadas, levam à insanidade.

As teorias, em cima dessa hipótese, se bifurcam. Há alguns que alegam que o próprio assassino era o príncipe, acometido de surtos de insanidade que o levavam a retaliar contra prostitutas, vistas talvez, enquanto classe, como responsáveis por seu sofrimento. Outros alegam que os assassinatos, na verdade, teriam sido cometidos a mando da família real com o objetivo de ocultar escândalos sexuais nos quais o príncipe Alberto teria estado envolvido, incluindo um possível casamento secreto com uma plebeia, realizado numa taverna e testemunhado por prostitutas.

Diferentemente dos casos mais recentes, a verdade sobre Jack o Estripador e suas possíveis conexões com a família real britânica dificilmente virão à luz, especialmente por todo o tempo que já passou.

Ainda assim, certamente há algo de podre fluindo nas profundezas do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

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O fator azerbaijano no atual conflito entre Irã e Israel https://strategic-culture.su/news/2026/03/09/o-fator-azerbaijano-no-atual-conflito-entre-ira-e-israel/ Mon, 09 Mar 2026 15:02:19 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=891031 Baku está prejudicando seus laços com a Turquia ao falar em retaliação contra o Irã.

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O recente pronunciamento do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, afirmando que o Irã não pretende atacar países vizinhos, gerou interpretações equivocadas em diversos círculos analíticos. Muitos observadores assumiram que a declaração era direcionada às monarquias do Golfo. No entanto, isso simplesmente não seria possível, considerando que os ataques americanos contra o Irã partem dos países sunitas. Ademais, o Irã continua frequentemente destruindo alvos nesses países.

Uma leitura mais cuidadosa do pronunciamento indica que a mensagem tinha um destinatário específico: o Azerbaijão. A fala de Pezeshkian parece ter sido, sobretudo, um gesto de desescalada diante da possibilidade de abertura de um novo front na guerra atual.

A tensão começou após a queda de um suposto drone iraniano em um aeroporto do Azerbaijão. Autoridades em Baku classificaram o episódio como um possível ataque hostil e responderam com retórica dura, incluindo promessa de uso da força. Movimentações militares na fronteira foram relatadas, sugerindo que o incidente poderia evoluir para um confronto direto.

Teerã negou imediatamente qualquer envolvimento no episódio. Essa negação, por si só, não seria suficiente para dissipar suspeitas. Contudo, diversos fatores tornam pouco plausível a hipótese de um ataque deliberado iraniano. Em primeiro lugar, se o objetivo fosse atingir ativos estratégicos israelenses e americanos presentes no território azeri, dificilmente o Irã optaria por uma ação limitada e ineficaz como um simples incidente com drones que sequer causou danos significativos.

Além disso, a própria reação de Baku levanta questionamentos. Conflitos interestatais raramente são desencadeados por incidentes isolados envolvendo drones, sobretudo quando não há vítimas ou destruição relevante. A rapidez e intensidade da resposta sugerem que o episódio pode ter sido interpretado dentro de um contexto político já tensionado, no qual alguns atores poderiam estar buscando um pretexto para escalada.

Outro elemento relevante diz respeito à composição demográfica iraniana. Uma parcela significativa da população do país é formada por azeris étnicos, o que cria um fator de sensibilidade adicional na relação bilateral. Um conflito aberto com o Azerbaijão poderia gerar tensões internas e mobilizações identitárias indesejadas dentro do próprio Irã. Historicamente, por essa razão, Teerã tem adotado uma postura cautelosa em relação a Baku, evitando confrontos diretos sempre que possível.

Diante desse quadro, surgem hipóteses alternativas para explicar o incidente. Uma delas é a possibilidade de uma operação de bandeira falsa conduzida por atores interessados em arrastar o Azerbaijão para o conflito atual de Israel e EUA com o Irã. Outra possibilidade envolve o uso de capacidades de guerra eletrônica para desviar drones iranianos lançados em outras direções e fazê-los cair em território azeri, criando assim um incidente artificialmente politizado.

Independentemente da origem do episódio, o fator decisivo para compreender a crise reside nas alianças geopolíticas do Azerbaijão. Nos últimos anos, Baku desenvolveu uma cooperação estratégica significativa com Israel, especialmente nas áreas de defesa e inteligência. No entanto, essa aproximação cria tensões com outro parceiro central do Azerbaijão: a Turquia. Ancara tradicionalmente considera Baku um aliado natural, baseado em afinidades étnicas, linguísticas e históricas entre turcos e azeris. O lema “uma nação, dois Estados” foi durante anos um símbolo dessa parceria.

Contudo, o cenário regional mudou significativamente após a queda do governo de Bashar al-Assad na Síria, evento que alterou o equilíbrio estratégico no Oriente Médio. Com o enfraquecimento da antiga zona de amortecimento geopolítico representada pelo Estado sírio, projetos expansionistas concorrentes passaram a interagir de forma mais direta. De um lado, a estratégia regional turca frequentemente descrita como neo-otomanismo; de outro, a expansão da influência sionista sob o projeto de “Grande Israel”.

Nesse contexto, a Turquia percebe que Israel está se tornando seu inimigo existencial. A criação de possíveis alianças militares anti-turcas no Mediterrâneo Oriental (Grécia, Israel e Chipre) e no Chifre da África (com o reconhecimento da Somalilândia por Israel) é um claro sinal da hostilidade crescente entre Tel Aviv e Ancara. Por isso, mesmo tendo amplas divergências com o Irã, a Turquia vê como positivo o papel de Teerã no conflito atual, pois ajuda a enfraquecer Israel e melhora a segurança turca.

Nesse contexto, a Turquia não quer que sua nação-irmã do Sul do Cáucaso ataque o Irã, pois isso prejudicaria a estratégia turca para Israel. Ao ameaçar o Irã, Baku está ignorando sua nação-irmã em prol da amizade com Israel, o que muitos turcos veem como intolerável. Para setores nacionalistas turcos – incluindo correntes turquistas, turanistas, neo-otomanistas e até mesmo islamistas – a possibilidade de Baku agir militarmente contra o Irã sob influência israelense é interpretada como um movimento contrário aos interesses do mundo túrquico.

Assim, a atual crise expõe uma complexa teia de rivalidades e alianças. Um confronto direto entre Irã e Azerbaijão teria repercussões profundas não apenas no Cáucaso, mas também no equilíbrio estratégico entre Turquia, Israel e outras potências regionais – além de girar riscos sérios de conflito civil no Irã em razão da população nativa etnicamente azeri. Nesse sentido, o pronunciamento de Pezeshkian pode ser entendido como uma tentativa de evitar que um incidente limitado evolua para um conflito mais amplo.

Se essa tentativa de desescalada será suficiente ainda é incerto. O que parece claro, entretanto, é que uma guerra entre Irã e Azerbaijão dificilmente beneficiaria qualquer ator regional além daqueles interessados em ampliar divisões e rivalidades no espaço eurasiático – ou seja, Israel e EUA.

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A barbárie que nos governa … e triunfa https://strategic-culture.su/news/2026/03/08/a-barbarie-que-nos-governa-e-triunfa/ Sun, 08 Mar 2026 15:05:55 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=891015 O imperialismo-sionismo avança e dá xeque

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Depois da rábula da Gronelândia, do rapto e sequestro presidencial na Venezuela, como antecâmara da mudança de regime, da criminosa e desumana asfixia a que está submetido o povo de Cuba, chegou a vez do Irão. Já se previa, porque a aniquilação do regime independente iraniano é uma velha obsessão do sionismo internacional governante, de que o imperialismo norte-americano é o mais importante e fiável instrumento.

Esqueçam tudo quanto o nosso governo, a União Europeia, os Macrons, Merz, Starmers, Costas, Van der Leyens e outros energúmenos e energúmenas do género disseram sobre Donald Trump. Que era um louco, um demente, um aparentado de fascista, um inimigo da Europa, quiçá da NATO, um aliado de Putin e outros desvarios do mesmo tipo.

Esqueçam o mandado do Tribunal Penal Internacional emitido contra o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, primeiro ministro de Israel, as sucessivas declarações de reconhecimento do Estado Palestiniano feitas por governos da União Europeia, incluindo o português, as condenações, ainda que suaves, feitas ao regime sionista pelo genocídio do povo palestiniano.

Vivemos os dias em que todos os dirigentes ocidentais, desde os aparentemente menos trumpistas a todos os outros, acorreram, sem restrições, a beijar os pés de Donald Trump e as mãos sangrentas de Netanyahu, gratos pelo ataque bárbaro e assassino contra o Irão. Se os governos ocidentais já não passavam de caniches do império, agora resta-lhes seguir os rastos e ficar com a migalhas, cada vez mais racionadas.

Se são as horas dos beija-pés e beija-mãos a criminosos de guerra encartados, também são estes os tempos em que deixou de haver limites para a hipocrisia dos nossos dirigentes, arvorados em guias da “nossa civilização” superior e humanitária.

Dizer que a selvajaria em curso contra o Irão se desenvolve para livrar o povo iraniano da tirania dos ayatollahs, como se ouve e repete desde Netanyahu ao joguete Montenegro, é o argumento em que só os débeis mentais poderão acreditar; sobretudo quando se sabe que o objectivo desta operação de terror é deitar a mão ao petróleo de um dos segundos produtores mundiais desta riqueza e devolver o governo do Irão ao jugo dos xás e correspondente polícia política, formada, industriada e coordenada pelo Mossad sionista É isso que está verdadeiramente em causa. Trump, Netanyahu, a União Europeia e até outros países e instituições menos “ocidentais” não querem saber para nada do povo iraniano, como aliás desprezam, por princípio, todos os povos do mundo.

Registe-se que, mais nuance menos nuance, os dirigentes não eleitos da União Europeia e a quase totalidade dos governos dos 27 (a Espanha de Suárez é, de novo, a honrosa excepção) além de saudarem a acções ilegais norte-americanas e sionistas (à luz do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e das próprias leis dos Estados Unidos), não hesitam em condenar o Irão por responder militarmente à agressão. Isto é, os governos mundiais – sejam eles quais forem – têm o dever de se ajoelhar e aceitar a punição quando as forças imperiais os atacarem apenas porque lhes apetece ou lhes convém.

É altura de nos interrogarmos por que razão a União Europeia se está a armar até aos dentes, arrasando o que resta das economias nacionais e ameaçando hipotecar o futuro das suas gerações mais jovens, invocando a simples suposição de que poderá ser vítima de uma agressão militar russa. Se os países que receiam ser atacados por Moscovo fizerem como Bruxelas e os seus governos amestrados exigem ao regime iraniano podiam, pelo menos, poupar na militarização a todo o custo.

A última fronteira

Enquanto o enxame de comentadores que zumbe nas TV’s, nossas e dos outros – extasiando-se sadicamente com as supostas imagens do assassinado ayatollah Khamenei, um idoso com 86 anos, dirigente espiritual do Irão e da comunidade mundial xiita – se deleita com as maravilhas militares do imperial-sionismo e as limitações terceiro mundistas de Teerão, avancemos um pouco mais, para as consequências que estão no horizonte se os agressores deitarem mão à velha Pérsia.

No início deste século, o general norte-americano Wesley Clarke, que foi o comandante da NATO na Europa, escreveu que os neoconservadores, o suporte ideológico do imperialismo desde a queda da União Soviética, tinham como objectivo mudanças de regime ou, se necessário, a destruição de sete países que ensombravam o poder sionista e imperial sobre todo o Médio Oriente.

Esses países eram o Iraque, o Iémen, a Líbia, a Síria, a Somália, o Líbano e o Irão. O Egipto e a Jordânia já tinham sido conduzidos ao redil graças aos “processos de paz” montados sob “mediação” dos Estados Unidos e de Israel, pelo que não era necessário incluí-los na lista.

Não é preciso que o leitor faça grandes esforços de memória para recordar o que aconteceu e continua a acontecer a cada um desses países.

O general Wesley Clarke não era um profeta nem um bruxo. Enquanto muitos dirigentes norte-americanos, sionistas, de países ocidentais e os seus mentores e apêndices, seja na banca, nos gangs económicos, nos media e no entretenimento, se refastelavam nas orgias de Epstein, revelando os seus elevados valores morais, cada um dos citados países foi abatido ao activo, contribuindo para o sossego dos salteadores sionistas – que assim puderam dedicar-se à sistemática chacina do povo palestiniano.

A Somália foi arrasada, e dessa operação veio a nascer uma aberração, a Somalilândia, agora transformado em braço militar de Israel no Corno de África. O Iémen estrebucha enquanto pode, depois de gravemente ferido durante a guerra programada que lhe foi movida pela Arábia Saudita, a rogo de Washington e Telavive. Em tempos recentes, os sectores patrióticos iemenitas ainda conseguiram incomodar Israel e perturbar o tráfego marítimo na região, mas a fragilização ou a eventual mudança de regime em Teerão irão pôr em causa essa resistência.

O Iraque está reduzido a uma pulverização de poderes tribais, religiosos e étnicos em todo o território, enquanto um arremedo de poder finge que governa – ainda assim sob tutela norte-americana – nos bunkers para lá da linha verde em Bagdade. O petróleo, porém, está nas mãos das multinacionais norte-americanas.

A Líbia foi arrasada. A guerra norte-americana e ocidental “contra o terrorismo” entregou o país a bandos de terroristas ditos islâmicos depois do assassínio repugnante de Muammar Khaddafi e o roubo das reservas de ouro do país. “Chegámos, vimos e ele morreu”, declarou a secretária de Estado da Administração Obama, Hilary Clinton, mulher íntegra e com grande bagagem moral, ao desembarcar no território, proclamar a tutela imperial e garantir que o petróleo (as maiores reservas de África) passava a custar uns trocos às multinacionais do costume.

A Síria, que os Estados Unidos, Israel e a União Europeia entregaram a um chefe da al-Qaida, está a ser desmantelada para que, depois de correrem rios de sangue, fique transformada num quebra-cabeças de entidades étnicas, religiosas e tribais que nada obstem aos interesses dos Estados Unidos e de Israel. Antes disso, como já acontece, o petróleo escorre em direcção à entidade sionista e às vampirescas transnacionais. O próprio Trump assegurou que as suas tropas permaneceriam no país para tomar conta do petróleo.

O pobre Líbano, dizimado por sucessivas agressões de Israel ao longo de 50 anos, e pelas guerras internas apadrinhadas por Telavive e Washington, tem os dias contados caso o Irão independente não resista. Gravemente ferido pela desfecho da guerra imposta à Síria, o único movimento libanês armado, independente e com capacidade de resistência, o Hezbollah, dificilmente sobreviverá sem o apoio de Teerão.

O Irão nascido do derrube do Xá Rehza Palevi, em 1979, é a última barreira a ultrapassar pelo sionismo e o imperialismo, de acordo com os planos revelados há 25 anos pelo general Clarke. Teerão garantia o apoio à resistência libanesa e iemenita, desenvolveu grande parte dos esforços para que a Síria não fosse desmantelada, ainda sustenta vários grupos que combatem pela independência no interior do Iraque. E, na verdade, o xiismo iraniano, num gesto que se sobrepõe a velhas questões religiosas, é o apoio que resta ao povo palestiniano, maioritariamente muçulmano sunita.

O Irão independente é a resistência que sobra para evitar que o sionismo e o imperialismo assumam o poder absoluto em todo o Médio Oriente e travar os avanços para a construção do Grande Israel, o sonho colonial e expansionista nascido no fim do século XIX. As petroditaduras selváticas do Golfo, da Arábia Saudita ao Qatar, são simples capachos dos Estados Unidos e Israel e, além disso, mais uma vez contra os interesses dos seus povos, que desprezam, anseiam por uma mudança de regime em Teerão.

A “bomba nuclear” iraniana e o “jugo dos ayatollahs” são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se. Seguindo uma política em que o regime sionista é mestre, Trump fingiu negociar com o Irão o tempo necessário para montar a operação terrorista em curso e tentar que Teerão se mantivesse na dúvida sobre ser ou não atacado.

Donald Trump não foi e não é, como se chegou a tentar fazer crer, um erro de casting do complexo militar-industrial-tecnológico norte-americano, transformado numa cáfila de ladrões e assassinos. Trump corresponde às necessidades de sobrevivência do neoliberalismo como estado actual e supremo do imperialismo – a fase em que o fascismo se apresenta cada vez mais como horizonte imprescindível perante o descalabro e o desprestígio da “democracia liberal”.

A convergência temporal e ideológica do aparecimento de Trump nos Estados Unidos e da consolidação do totalitarismo sionista em Israel confirma a aposta no fascismo desencadeada pelo desespero do neoliberalismo, uma espécie de regresso às origens, ao terror do Chile de Pinochet, agora com uma ameaçadora amplitude transnacional. Já notaram, em termos domésticos, como Passos Coelho voltou a falar grosso, sobrepondo-se até ao ventríloquo Ventura?

O mundo está no fio da navalha. O terror norte-americano e sionista contra o Irão é muito mais do que uma fuga para a frente, atinge proporções que o podem conduzir a um grande salto em frente. Até ao momento, não existe qualquer movimentação no mundo que manifeste coragem para tentar travá-lo. O imperialismo-sionismo moveu-se e deu xeque no xadrez geoestratégico. No outro lado do tabuleiro são poucas as acções para evitar o xeque-mate. E as palavras de condenação leva-as o vento.

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Até quando os curdos serão bucho de canhão para o Ocidente? https://strategic-culture.su/news/2026/03/07/ate-quando-os-curdos-serao-bucho-de-canhao-para-o-ocidente/ Sat, 07 Mar 2026 14:48:31 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890996 Os curdos deveriam parar de importar pautas estrangeiras e começar a buscar integração em seus próprios países.

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Nos últimos dias, novos relatos sobre tentativas dos Estados Unidos de mobilizar milícias curdas contra o Irã reacenderam uma velha questão geopolítica do Oriente Médio: até quando os curdos aceitarão servir como força de choque das estratégias ocidentais? A história recente mostra que, repetidamente, esse papel termina em tragédia para os próprios curdos.

Ao longo das últimas décadas, os curdos foram apresentados por Washington e seus aliados como um “parceiro natural” no Oriente Médio. No entanto, na prática, esse relacionamento tem sido profundamente instrumental. Sempre que surge uma nova crise regional, setores do establishment ocidental voltam a olhar para grupos armados curdos como uma ferramenta útil para pressionar governos considerados hostis.

Hoje, a mesma lógica aparece novamente no contexto da guerra contra o Irã.

A ideia de fomentar insurgências curdas dentro do território iraniano segue o mesmo roteiro visto em outros cenários. O problema é que essa estratégia ignora completamente a realidade militar e política da região. As milícias curdas não possuem capacidade estratégica para enfrentar um Estado consolidado como a República Islâmica do Irã. Diferentemente de conflitos de baixa intensidade, um confronto direto com Teerã significaria enfrentar um aparelho militar sofisticado, uma rede de segurança interna eficiente e uma estrutura estatal altamente resiliente.

Em termos práticos, qualquer tentativa de insurgência armada dentro do Irã tenderia a ser rapidamente neutralizada. O resultado previsível seria a destruição das milícias envolvidas e o sofrimento das populações curdas locais. Aliás, a experiência recente em outros países já demonstra os limites desse tipo de projeto.

Na Síria, milícias curdas ganharam protagonismo durante a Guerra Civil e receberam amplo apoio militar dos Estados Unidos. No entanto, essa parceria revelou-se extremamente frágil. Quando os interesses estratégicos de Washington mudaram, as forças curdas ficaram expostas a ofensivas externas e a pressões regionais que não tinham capacidade de conter, como recentemente vistos nos ataques do governo da HTS contra as regiões curdas.

A situação foi ainda mais clara na Turquia. Ali, décadas de confronto armado envolvendo organizações curdas resultaram em sucessivas derrotas militares. O Estado turco demonstrou repetidamente que possui capacidade para esmagar insurgências étnicas em seu território. Em vez de avançar na conquista de autonomia ou reconhecimento político, o ciclo de confrontos apenas reforçou a marginalização dessas comunidades.

Esses precedentes levantam uma pergunta fundamental: por que repetir o mesmo erro em relação ao Irã?

A realidade estratégica indica que qualquer aventura militar contra Teerã teria um desfecho previsível. O Estado iraniano possui recursos militares, capacidade de mobilização e legitimidade interna suficientes para esmagar rapidamente milícias insurgentes. A tentativa de transformar os curdos em instrumento de guerra contra o Irã apenas criaria sofrimento para essa população sem necessidade alguma.

Além da dimensão militar, existe também uma questão ideológica e cultural frequentemente ignorada. Em vários círculos políticos curdos contemporâneos, especialmente aqueles influenciados por estruturas apoiadas pelo Ocidente, tornou-se comum a adoção de agendas culturais alinhadas ao discurso liberal ocidental – incluindo pautas liberais e conceitos associados à chamada cultura “woke”, conforme visto com os batalhões feministas e “queer” na Síria.

Embora essas agendas possam ter ressonância em determinados ambientes políticos ocidentais, elas frequentemente afastam os movimentos curdos das realidades sociopolíticas do Oriente Médio. Em vez de fortalecer sua posição regional, esse alinhamento aprofunda a percepção de que certos grupos curdos atuam como extensões de projetos geopolíticos externos. Se o objetivo real for alcançar representação política duradoura e estabilidade para as comunidades curdas, o caminho provavelmente é outro.

Historicamente, povos sem Estado que alcançaram reconhecimento e direitos políticos o fizeram por meio da integração institucional e da negociação dentro dos Estados nos quais vivem, não através de separatismo, importação de ideias estrangeiras e insurgências permanentes alimentadas por potências externas.

Nesse sentido, a estratégia mais racional para os curdos seria abandonar o papel de força auxiliar de agendas ocidentais. Em vez de servir como “bucha de canhão” em conflitos que beneficiam outros atores, movimentos curdos poderiam concentrar seus esforços em processos políticos internos, buscando direitos culturais, participação institucional e coexistência pacífica.

A estabilidade do Oriente Médio dificilmente será alcançada por meio da fragmentação permanente dos Estados da região. Pelo contrário, a paz tende a surgir quando diferentes comunidades conseguem encontrar formas de convivência dentro das estruturas nacionais existentes.

Se as lideranças curdas compreenderem essa realidade estratégica, poderão finalmente romper o ciclo histórico de instrumentalização externa. Somente então haverá espaço para um futuro no qual os curdos deixem de ser peças descartáveis em jogos geopolíticos e passem a atuar como atores políticos legítimos dentro de seus próprios países.

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EUA e Israel: Quem é o senhor e quem é a colônia? https://strategic-culture.su/news/2026/03/06/eua-e-israel-quem-e-o-senhor-e-quem-e-a-colonia/ Fri, 06 Mar 2026 17:03:37 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890976 Tel-Aviv instrumentalizará os EUA enquanto isso servir aos seus próprios interesses expansionistas.

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A Coalizão Epstein (EUA e Israel) iniciou no dia 28 de fevereiro uma guerra contra a República Islâmica do Irã. O tiro de partida foi o assassinato de 171 meninas numa escola primária (talvez como sacrifício a Baal, divindade favorita dos epsteinianos?), seguido pelo martírio do Aiatolá Ali Khamenei, em sua própria residência.

Foi o início de uma “operação” que os EUA esperavam ver terminada em algumas horas, depois em 3 dias. Bem, já passam de 6 dias de operação e todos os analistas indicam que a guerra durará, no mínimo, algumas semanas, com perdas significativas em ambos os lados.

O que levou essa operação a ser iniciada? A resposta fácil e previsível é que os EUA querem o petróleo e outros recursos naturais do Irã.

Usualmente, quem raciocina dessa maneira tende, também, a dizer que o Estado de Israel representa um enclave dos EUA ou do “Ocidente coletivo” no Oriente Médio, cuja finalidade seria servir de entreposto para facilitar ou possibilitar a ocupação da região, para garantir a exploração dos seus recursos naturais. É o resultado inevitável, talvez, de olhar para as estatísticas comparadas de ambos países.

Os EUA são maiores, têm um PIB maior, forças armadas mais poderosas e mais numerosas, possuem mais bilionários, enfim, são “superiores” em todos os quesitos possíveis e imagináveis, de modo que só se pode perceber a relação EUA-Israel como uma na qual os EUA mandam e Israel obedece.

De fato, as leituras marxianas e, em geral, materialistas vão nesse sentido. Mas a Guerra do Irã confirma essa avaliação?

Se é Israel a colônia obediente dos EUA, então a decisão de iniciar o conflito teria sido eminentemente dos EUA, com Israel simplesmente obedecendo à determinação de sua “metrópoles”.

Mas aquilo que se percebe das declarações oficiais do Secretário de Estado Marco Rubio e do Secretário de Guerra Pete Hegseth é exatamente o oposto: eles deixaram bastante claro em suas coletivas de imprensa que os EUA se envolveram no conflito apenas porque Israel já havia decidido atacar o Irã, com Washington simplesmente seguindo a determinação sionista.

Usou-se o artifício de alegar um plano de ataque preventivo por parte do Irã, mas o artifício foi rapidamente abandonado após ter sido refutado pelo Pentágono. De fato, o Irã não tinha qualquer plano de atacar seja os EUA, seja Israel.

Em outras palavras, Israel teria feito os EUA atacarem o Irã. Como isso é possível?

A solução para o mistério parece estar no papel da comunidade judaica dos EUA e sua influência sobre os negócios internos do país, tenham seus membros cidadania israelense ou não. Afinal, apesar de compor apenas 2.4% da população dos EUA, 25% dos seus membros possui renda equivalente ao 4% mais ricos entre os não judeus.

E se em muitos países, boa parte da comunidade judaica é crítica ou indiferente a Israel, nos EUA 90% dos membros da comunidade apoiam Israel contra seus inimigos. E esse apoio não é meramente verbal, expressando-se através da organização formal de lóbis que financiam candidatos pró-Israel e prejudicam candidatos anti-Israel, a mais famosa dessas organizações sendo a AIPAC, a qual investiu quase 130 milhões de dólares para eleger seus candidatos em 2024.

Um ativo muito mais importante, porém, é o fato de que, tal como indicado pela renda, muitos membros dessa comunidade ocupam postos de poder e influência na mídia de massa, no sistema bancário e no entretenimento. Mesmo sendo apenas, novamente, 2.4% da população dos EUA, constituem 33% dos CEOs dos principais bancos, 40% dos CEOs dos principais conglomerados midiáticos e 50% dos CEOs das principais empresas da indústria do entretenimento.

E esses são os setores que, basicamente, controlam o fluxo de investimentos, bem como moldam as opiniões e gostos da população do país.

Anos atrás, os geopolitólogos John Mearsheimer e Stephen Walt lançaram um ótimo livro sobre o lóbi sionista nos EUA. O que eles deixam bem claro naquela obra é que o apoio dos EUA a Israel não está vinculado a qualquer interesse estratégico de Washington. O custo de apoiar Israel é imenso, tanto em dinheiro quanto na popularidade internacional dos EUA. De fato, os EUA apenas se prejudicam ao apoiar Israel contra seus inimigos.

Então como se poderia dizer que os EUA controlam Israel?

Voltando à atual administração presidencial, personagens como Hegseth e Lindsay Graham admitem abertamente que o principal objetivo dos EUA é facilitar a reconstrução do Templo de Jerusalém para abrir o caminho para a vinda do Messias dos judeus. Escatologicamente, o problema aí é que, para católicos, ortodoxos e protestantes tradicionais, o Messias dos judeus é o Anticristo.

Por mais que Israel seja dependente da ajuda financeira e militar dos EUA, o sionismo capturou os mecanismos de decisão e formação da opinião pública de maneira tão total que praticamente poderíamos comparar o hegemon unipolar a um golem acéfalo. No lugar de “America First”, é a política do “Israel First”.

Enquanto bases, radares, aviões e pessoal dos EUA é atingido por chuvas de mísseis e drones, e Washington vai perdendo influência e capacidade de projetar poder no Oriente Médio, torna-se inevitável chegar à conclusão de que é Israel quem dá as cartas nessa relação, e que Tel-Aviv instrumentalizará os EUA enquanto isso servir aos seus próprios interesses expansionistas.

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O mito da «decapitação» militar https://strategic-culture.su/news/2026/03/05/o-mito-da-decapitacao-militar/ Thu, 05 Mar 2026 15:05:58 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890961 Análise comparativa entre Irã-Israel e Rússia- Ucrânia.

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A recente escalada no Oriente Médio recoloca no centro do debate estratégico um conceito recorrente na doutrina militar ocidental: o chamado “ataque de decapitação”. A ideia é simples em aparência e sedutora em termos políticos – eliminar a liderança de um Estado adversário para provocar colapso institucional, desorganização militar e, em última instância, mudança de regime. No entanto, a realidade histórica mostra que tal abordagem está longe de ser a solução mágica que seus formuladores imaginam.

Os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, culminando na morte do aiatolá Ali Khamenei, foram claramente concebidos sob essa lógica. A expectativa parecia ser a de que, removendo a principal autoridade política e religiosa da República Islâmica, o sistema entraria em colapso ou enfrentaria revoltas internas suficientes para viabilizar uma transição forçada. Ao mesmo tempo, apostava-se que a resposta iraniana seria limitada, como em confrontos anteriores.

O cálculo revelou-se equivocado. Em vez de desintegração, houve consolidação interna. Milhares de iranianos tomaram as ruas do país, mesmo sob bombas, para endossar a República Islâmica e gritar “morte à América”. Além disso, não houve paralisia estratégica entre os decisores iranianos, que prontamente responderam bombardeando alvos em todo o Oriente Médio.

Esse descompasso entre expectativa e realidade decorre de uma característica estrutural da mentalidade militar ocidental contemporânea. Washington, acostumado a intervenções rápidas contra Estados frágeis, consolidou uma cultura de guerra de curta duração, com alto poder destrutivo inicial e rápida retirada. Tel Aviv, por sua vez, devido às suas dimensões territoriais e limitações demográficas, desenvolveu uma doutrina baseada em ataques preventivos e neutralização célere de lideranças inimigas. Contudo, tal modelo tende a fracassar quando aplicado contra Estados com coesão nacional, aparato institucional sólido e capacidade de mobilização.

O Irã não é um Estado colapsado, tampouco uma estrutura tribal fragmentada. Com mais de 90 milhões de habitantes e uma ordem política consolidada desde 1979, o país construiu mecanismos de sucessão e redundância no comando. A própria idade avançada de Khamenei indicava que a transição já era tema interno. Assim, a tentativa de “decapitação” não atingiu o núcleo funcional do poder iraniano. Pelo contrário, reforçou o sentimento patriótico e ampliou o apoio popular ao governo.

A lição estratégica é clara: sistemas políticos complexos não dependem exclusivamente de um indivíduo. Quando há instituições enraizadas e cadeias de comando distribuídas, eliminar uma figura simbólica pode gerar martírio e coesão, não colapso.

É justamente esse entendimento que ajuda a explicar por que a Rússia não adotou, no conflito com a Ucrânia, uma política sistemática de assassinatos direcionados contra a liderança política em Kiev. Desde o início da operação militar especial, Moscou demonstrou capacidade técnica para atingir centros de comando e infraestrutura crítica. Ainda assim, não priorizou a eliminação física do presidente Vladimir Zelensky ou de outras figuras centrais do governo ucraniano.

Essa escolha não decorre de incapacidade, mas de cálculo estratégico. Em primeiro lugar, a remoção de Zelensky poderia produzir o efeito inverso ao desejado, transformando-o em símbolo internacional e consolidando ainda mais o apoio ocidental a Kiev. Em segundo, a estrutura estatal ucraniana – sustentada por intensa assistência da OTAN – não depende exclusivamente de uma liderança individual. A substituição poderia ocorrer rapidamente, sem alterar a dinâmica do conflito.

Além disso, a estratégia russa tem sido caracterizada por uma guerra de atrito prolongada, focada na degradação gradual da capacidade militar e logística adversária. Trata-se de um modelo oposto à lógica da decapitação. Moscou parece compreender que, em conflitos entre Estados organizados, a vitória raramente se alcança com um golpe único e espetacular, mas sim por meio da erosão sistemática das condições materiais do inimigo.

O mito da decapitação persiste porque oferece uma narrativa simplificada e politicamente vendável: a ideia de que basta remover a “cabeça” para que o corpo desmorone. Entretanto, a experiência recente demonstra que tal suposição ignora a natureza resiliente dos Estados modernos. Lideranças podem ser substituídas; instituições, quando consolidadas, tendem a sobreviver.

Em última análise, a obsessão por ataques de decapitação revela mais sobre as limitações estratégicas de quem os executa do que sobre a vulnerabilidade de quem os sofre. A história recente sugere que guerras entre potências ou Estados estruturados não se resolvem por gestos dramáticos, mas por processos prolongados, nos quais coesão interna e capacidade industrial pesam mais do que a eliminação de figuras individuais.

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Falando grosso com o Irã e fino com os EUA https://strategic-culture.su/news/2026/03/04/falando-grosso-com-o-ira-e-fino-com-os-eua/ Wed, 04 Mar 2026 15:29:10 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890943 Toda essa entrega política vai ser suficiente para que o imperialismo e os seus lacaios no Brasil aceitem mais quatro anos de Lula e do PT no governo.

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Em 2007, após Evo Morales nacionalizar o gás e o petróleo bolivianos, incluindo propriedades da Petrobras, Lula respondeu às pressões da direita brasileira, anticomunista e vassala do imperialismo, inimiga da integração latino-americana: “o Brasil não fala grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos.”

Aquela frase resumia as pretensões nacionalistas de um segundo governo do PT, que naquele momento, já tendo passado por experiências de administração do Estado burguês, sentia-se relativamente livre das amarras dos partidos pró-imperialistas, uma vez que a chegada de Lula ao governo levou a um crescimento gigantesco do partido dentro das máquinas públicas regionais e a uma força que jamais havia alcançado no Congresso Nacional.

O PT iniciava o seu melhor momento institucional. Nas eleições gerais de 2006, por pouco Lula não vencera no primeiro turno e derrotou Alckmin com 60% dos votos no segundo turno. O PT tinha a segunda maior bancada do Congresso Nacional e a presidência da Câmara. Era o terceiro partido com o maior número de governadores (com dois a menos que o PMDB e um a menos que o PSDB). Em 2008, seria o terceiro partido com o maior número de prefeituras municipais.

Além disso, na política externa Lula era amigo de Bush e estava rodeado por governos de esquerda, inclusive alguns apoiados por intensas mobilizações populares, como o do próprio Morales, ou os de Chávez e Correa. O ciclo das commodities impulsionava a economia brasileira, que viria a crise de 2008 como uma mera “marolinha”, nas palavras de Lula.

Contudo, após a marolinha, veio a tempestade. A crise demorou mais para chegar ao Brasil graças ao bom momento no mercado internacional de matérias-primas, mas finalmente ela chegou. O imperialismo abandonou a política da boa vizinhança e passou a derrubar os governos nacionalistas da América Latina. O PT não foi exceção e, para isso, a direita golpista foi acionada, gestando a extrema-direita bolsonarista.

A crise da Covid-19, o desastre do governo Bolsonaro para a própria burguesia e a mobilização dos trabalhadores trouxeram Lula e o PT de volta ao governo em 2022. Mas o estrago já estava feito e não foi consertado: após o golpe de 2016, a natureza mesma do PT, um partido reformista e institucional, o fez se integrar totalmente ao regime político e com isso sofrer com a crise desse regime. A política do PT, de alianças e resgate dos políticos falidos, impossibilitou que ele colhesse devidamente os frutos da vitória eleitoral.

Lula voltou com as mãos mais atadas e mais apertadas do que nunca. Voltou como um refém do regime e de suas instituições apodrecidas. Nem sequer arrisca uma maior independência, como havia feito vinte anos atrás. Nem mesmo quando teve a oportunidade, diante da queda do Partido Democrata e da vitória de Trump. Pelo contrário: a sedução democrata deu lugar ao porrete trumpista e, com medo das tarifas, por um lado, e da chantagem do STF, vítima de sanções, por outro, cedeu vergonhosamente às exigências do imperialismo americano.

Lula não passou do chororô diante do genocídio praticado por Israel contra os palestinos. Rompeu com o governo sandinista da Nicarágua, seu aliado histórico. Barrou a entrada da Venezuela no BRICS, não reconheceu a vitória eleitoral de Maduro e se calou perante os bombardeios e o sequestro do líder venezuelano, e nada faz para ajudar a Cuba ainda mais asfixiada por Trump – antes tachado de fascista, extremista, misógino, homofóbico, xenófobo, mentiroso, lunático e por aí vai. Como num conto de fadas, Lula se encantou com o monstro: “foi amor à primeira vista.”

A nota oficial do governo brasileiro quando da agressão imperialista ao país vizinho nem sequer mencionou os Estados Unidos e Trump como responsáveis pela ação e chamou o sequestro de Maduro de “captura” – como se ele fosse um criminoso.

A mesma covardia da diplomacia brasileira se repete com a guerra desencadeada pelo imperialismo e o sionismo contra o Irã. Em nota inicial, o Itamaraty afirmou: “o governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados hoje (28/02) por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã.” Porém, em nota seguinte, condenou a retaliação iraniana aos alvos legítimos dos Estados Unidos dentro dos países artificiais governados por monarquias satélites chamados de “Estados do Golfo”. A nota ainda afirmou que o governo brasileiro “se solidariza” com os países “objetos de ataques retaliatórios do Irã” – uma nota muito mais crítica ao Irã do que a anterior foi a Estados Unidos e Israel, não mencionando esses dois países, que iniciaram a guerra, e se solidarizando com os atingidos pelo Irã, enquanto na primeira nota não expressa nenhuma palavra de solidariedade a Teerã.

É a inversão da política “ativa e altiva” pregada tradicionalmente por Lula e o PT. Com medo de perder seus assentos governamentais, ministeriais e parlamentares, o PT está falando grosso com os países pobres, indefesos e agredidos e fino com os que os oprimem.

Para piorar, Lula tem um encontro marcado com Trump para o meio do mês, na Casa Branca. Pode ser que a guerra contra o Irã escale ainda mais e o governo dos Estados Unidos suspenda o encontro. Mas já se diz que, se isso não ocorrer, Lula irá a Washington se reunir com Trump para cultivar as relações com a nação imperialista.

Resta saber se toda essa entrega política vai ser suficiente para que o imperialismo e os seus lacaios no Brasil aceitem mais quatro anos de Lula e do PT no governo – o centro dos esforços da direção petista, em seu vício eleitoreiro e carguista, em sua paixão pelos privilégios garantidos a quem integra a máquina pública, máquina de enganar e explorar o público.

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Mercenários brasileiros dizem haver aprendido ‘guerrilha’ na Ucrânia https://strategic-culture.su/news/2026/03/03/mercenarios-brasileiros-dizem-haver-aprendido-guerrilha-na-ucrania/ Tue, 03 Mar 2026 16:19:58 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890917 Kiev está treinando prospectos ao crime organizado no Brasil.

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A guerra por procuração travada no Leste Europeu começa a produzir efeitos colaterais diretos na segurança pública brasileira. Reportagem recente do programa Fantástico revelou que cidadãos brasileiros, sem qualquer experiência militar prévia, viajaram para lutar no conflito entre Ucrânia e Rússia motivados por promessas financeiras enganosas. Ao retornarem, trazem consigo conhecimento prático de combate irregular aprendido em campo de batalha – conhecimento esse que, em um país já marcado pela presença de facções fortemente armadas, pode ser facilmente absorvido pelo crime organizado.

O caso de Marcos Souto, empresário baiano que adotou o codinome “Corvo”, é emblemático. Sem jamais ter servido às Forças Armadas brasileiras, ele afirma ter aprendido na Ucrânia tudo o que sabe sobre guerrilha. Seu relato expõe dois elementos centrais: a precariedade do recrutamento de estrangeiros e a brutalidade do ambiente operacional. Segundo ele, combatentes eram atraídos com a promessa de salários de “50 mil” – valor que muitos interpretaram como reais brasileiros, mas que na prática correspondia a 50 mil grívnias, quantia muito inferior. Ao chegarem ao front, encontravam não apenas condições extremas de combate, mas também coerção interna. Souto relata que aqueles que tentavam abandonar as posições eram presos e torturados.

Não se trata de um episódio isolado. Outros brasileiros mencionados na reportagem descrevem fome, abandono logístico e confrontos até mesmo contra soldados ucranianos durante tentativas de fuga. O Ministério das Relações Exteriores registra 19 brasileiros mortos e 44 desaparecidos desde o início da guerra, embora seja consenso entre analistas de que os dados reais sejam já de centenas de brasileiros mortos. Ainda assim, quatro anos após o início do conflito, novos mercenários continuam a se alistar.

O ponto central, entretanto, não é apenas humanitário. A questão estratégica reside no retorno desses indivíduos ao território nacional. Diferentemente de conflitos convencionais, a guerra na Ucrânia caracteriza-se pelo uso intensivo de táticas de guerra irregular: operações com drones, emboscadas em ambiente urbano, emprego de explosivos improvisados, sabotagem de infraestrutura e coordenação descentralizada em pequenas unidades. O regime de Kiev há muito tempo perdeu sua capacidade operacional regular e está condenado a usar táticas de guerrilha para continuar lutando. Trata-se de um laboratório contemporâneo de guerra não-convencional.

Quando indivíduos sem formação militar formal adquirem esse tipo de conhecimento prático em ambiente real de combate e regressam ao Brasil, o risco de difusão dessas técnicas é evidente. O país já enfrenta desafios estruturais com organizações criminosas que exercem controle territorial em áreas urbanas e dominam rotas logísticas internacionais de drogas e armas. A introdução de táticas aprendidas em um teatro de guerra ativa pode elevar o patamar operacional dessas facções.

Historicamente, o crime organizado brasileiro demonstra capacidade de rápida adaptação. Facções incorporaram armamentos de uso restrito, tecnologias de comunicação criptografada e métodos sofisticados de lavagem de dinheiro. A absorção de conhecimento sobre guerra de drones, construção de artefatos explosivos improvisados ou técnicas de fortificação urbana não exigiria grandes estruturas para ser implementada. Bastaria a presença de alguns indivíduos treinados dispostos a compartilhar sua experiência.

Há também um componente psicológico relevante. Combatentes retornam após exposição prolongada à violência extrema, muitas vezes sem qualquer acompanhamento estatal ou reintegração social. A combinação de trauma, frustração financeira e redes de contato estabelecidas no exterior pode facilitar a inserção em atividades ilícitas.

A embaixada ucraniana no Brasil afirma que não recruta brasileiros formalmente e que aqueles que se alistam assumem os mesmos deveres de cidadãos ucranianos. Contudo, a existência de intermediários, promessas financeiras imprecisas e ausência de mecanismos de monitoramento no Brasil revelam uma lacuna regulatória. Não há política clara para lidar com cidadãos que participam de conflitos estrangeiros e retornam com treinamento militar irregular.

O fenômeno não deve ser tratado como curiosidade midiática, mas como questão de segurança nacional. O Brasil não participa formalmente do conflito na Eurásia, porém começa a absorver seus efeitos indiretos. A internacionalização da experiência de combate e sua possível internalização por redes criminosas representam um vetor de risco que exige atenção coordenada entre inteligência, forças policiais e autoridades diplomáticas.

Ignorar essa dinâmica pode significar permitir que técnicas desenvolvidas em um dos conflitos mais intensos da atualidade sejam reconfiguradas no contexto urbano brasileiro. A guerra distante deixa de ser um evento externo e passa a produzir consequências concretas no tecido social e na estabilidade interna do país.

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Medicamento inovador que fez tetraplégico voltar a andar suscita discussão dos custos dos testes clínicos https://strategic-culture.su/news/2026/03/02/medicamento-inovador-que-fez-tetraplegico-voltar-a-andar-suscita-discussao-dos-custos-dos-testes-clinicos/ Mon, 02 Mar 2026 17:21:43 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890905 Nos últimos meses, o Brasil vem sendo agitado por uma questão que é pertinente para todo o mundo: a possibilidade de os paralíticos com lesão medular total recuperarem totalmente os movimentos.

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Nos últimos meses, o Brasil vem sendo agitado por uma questão que é pertinente para todo o mundo: a possibilidade de os paralíticos com lesão medular total (e só eles) recuperarem totalmente os movimentos, caso recebam uma certa injeção na medula até 3 dias após o acidente e façam fisioterapia.

O Brasil começou a prestar atenção ao assunto quando, em setembro de 2025, a imprensa publicou a incrível história de Bruno Drummond: em 2018 ele quebrou o pescoço num acidente de trânsito, ficou tetraplégico e aceitou ser cobaia de uma pesquisa piloto. Em menos de 24 horas, ele recebeu a injeção na medula e hoje consegue caminhar. Ele saiu direto da classificação A (sem movimentos) para a D (força e sensibilidade para quase todos os movimentos), fato sem precedentes na literatura médica. Esse teste piloto tinha seis pacientes. Os cinco pacientes restantes pularam do A para o C (com parte da força e mobilidade). A pesquisa era desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro liderados pela Prof. Tatiana Sampaio em parceria com o laboratório brasileiro Cristália.

O Brasil ficou empolgadíssimo, e os internautas repetiam que ela merece o Nobel. Diante da novidade, as famílias dos pacientes, desesperadas, começaram a entrar na justiça para pedir o uso compassivo do medicamento em teste. E aí apareceu mais uma história muito importante: um certo Diogo Brollo trabalhava instalando janelas num prédio quando caiu, sofreu uma lesão total da medula e sua irmã conseguiu uma ordem judicial para que ele recebesse o tratamento por uso compassivo. Em apenas quinze dias, ele conseguiu mexer o pé e a perna. Até 22 de fevereiro, havia 55 pedidos judiciais, dos quais 30 foram aceitos.

Os pacientes que tomam o medicamento por uso compassivo não contam como caso clínico. Assim, fica a questão: se porventura a corrida judicial continuar, e o tratamento continuar tendo resultados favoráveis, como seguir os trâmites da pesquisa?

E aí temos a polêmica que incendiou o Twitter brasileiro. Um economista neoliberal que escreve para o mais tradicional jornal liberal de direita do país tuitou um corte de 28 segundos da entrevista da Prof. Tatiana Sampaio ao Roda Viva no qual ela dizia: “Vamos supor uma hipótese: que essas 30 pessoas que receberam por uso compassivo, todos voltem a andar. Você teria coragem de fazer um estudo clínico controlado?”, ao que uma entrevistadora responde, impassível, que é preciso seguir todos os trâmites e passar por todas as fases. Junto com o vídeo, o economista postou o comentário irônico “Agora o Nobel vem”. Ato contínuo, os mesmos atores que defendiam as maravilhas da “vacina” da Pfizer passaram a tratar a Prof. Tatiana Sampaio como uma charlatã ou uma simplória que não conhece a ciência.

Na mesma entrevista, porém, Tatiana Sampaio explicava os problemas de se fazer teste clínico nesse caso em particular, bem como em geral. Comecemos com o particular: cada vez que um paciente ganha na justiça o direito de fazer o teste, é preciso que o laboratório Cristália envie um neurocirurgião até o local para fazer o procedimento invasivo de injetar polilaminina na medula espinhal. No teste duplo-cego, cuja finalidade é eliminar o efeito placebo, dá-se o medicamento para uma parte de cobaias e placebo para outra, a fim de comparar os resultados. Ora, é antiético submeter um paciente a um procedimento invasivo para enfiar um líquido na melhor das hipóteses inócuo em sua medula. Além disso, mesmo que fosse um procedimento simples e fácil de substituir por um placebo, o tempo é importante para a eficácia do tratamento, logo, aquele que recebesse o placebo estaria fadado à cadeira de rodas. (A isto acrescentemos: se o paralítico pode conseguir o medicamento por via judicial, por que aceitaria ser cobaia num duplo-cego?)

Diante do fato de que é difícil seguir os trâmites existentes de maneira ética, a Prof. Tatiana Sampaio diz que é preciso pensar em novos modelos. E essa não é a única questão burocrática que clama por reflexão.

A questão das patentes e do custo dos testes clínicos

Outra notícia que chamou a atenção é que a cientista teve que pagar do próprio bolso pela patente. Há muito tempo a UFRJ tem sérios problemas administrativos que nenhuma autoridade quer resolver. Vou me limitar a observar que ela tem um orçamento bilionário mas, ainda assim, deixou o Museu Nacional pegar fogo devido à precariedade da rede elétrica – e o reitor ainda culpou os bombeiros. As múmias egípcias do imperador viraram pó; coleções de fósseis se perderam. Ao menos o Meteorito do Bendegó não pôde ser destruído. Assim, a UFRJ não iria pagar pela renovação das patentes brasileira, estadunidense e europeia, e perguntou à professora se ela mesma não queria pagar para não perder. Ela pagou somente a brasileira e as demais se perderam. Depois ela encontrou o Cristália.

Na entrevista ao Roda Viva, ela explicou que isso foi um mal que veio para bem, pois se a patente dos Estados Unidos ainda valesse, provavelmente teria sido comprada por um laboratório do primeiro mundo, o qual dispensaria os pesquisadores brasileiros, faria uma bateria de testes com toda rapidez e venderia o produto por uma fortuna. De posse da patente brasileira, ela e o laboratório esperam que no futuro o medicamento seja vendido para o SUS (o NHS brasileiro). Somos convidados a pensar, então, quantos países mundo afora não financiam cientistas nacionais para que uma grande empresa compre a patente de suas pesquisas em estágio inicial, termine de desenvolvê-las e ponha um preço absurdo a ser pago por esses mesmos países quando vão comprar o medicamento. O estrago que Reagan fez ao permitir que a verba pública de pesquisa virasse patente privada foi globalizado.

De resto, vale destacar o custo e a razoabilidade dos testes clínicos, que foi justamente o que levou os pets da Pfizer a atacarem a cientista após a entrevista no programa Roda Viva. Encerro citando a Prof.ª Tatiana Sampaio: “A patente é muito importante quando você vai vender alguma coisa. Imagina que você tem uma proposta de um novo medicamento e aí você quer fazer um estudo clínico para poder testar se ele funciona mesmo. Para fazer esse estudo clínico, você precisa de um orçamento muito grande, porque os estudos clínicos são muito caros. E aí você precisa que alguém se interesse por fazer aquele estudo clínico. E esse alguém, via de regra, vai se interessar por fazer esse estudo se ele tiver a perspectiva de um lucro muito grande com a exploração comercial daquilo. Por isso ele precisa da patente para garantir que só ele possa ganhar dinheiro com aquilo. Toda essa dinâmica é como a roda gira. Mas eu tenho que te dizer que não acho que seja uma situação ideal, na minha opinião. Eu acho que isso acaba fazendo uma grande reserva de mercado para grandes corporações.”

O entrevistador pergunta se então o ideal seria o Estado bancar, ao que ela responde: “Não sei, o ideal é uma coisa nova que a gente tem que fazer. A gente não precisa ter medo disso. Tem que construir uma coisa nova, porque esse paradigma de: você faz a patente, e aí você vende a patente para alguém que tem muito dinheiro e que vai botar muito dinheiro, e que vai… A gente tem que se perguntar isso: no afã de proteger as pessoas de serem usadas como cobaia, será que a gente não tá também fazendo uma reserva de mercado para um ente que tem uma expectativa muito grande de lucro?”

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