Philosophy – Strategic Culture Foundation https://strategic-culture.su Strategic Culture Foundation provides a platform for exclusive analysis, research and policy comment on Eurasian and global affairs. We are covering political, economic, social and security issues worldwide. Wed, 25 Feb 2026 11:05:34 +0000 en-US hourly 1 https://strategic-culture.su/wp-content/uploads/2023/12/cropped-favicon4-32x32.png Philosophy – Strategic Culture Foundation https://strategic-culture.su 32 32 As universidades, os milagres e o relativismo https://strategic-culture.su/news/2026/02/25/as-universidades-os-milagres-e-o-relativismo/ Wed, 25 Feb 2026 14:05:43 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890796 Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais.

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No mês passado, tratei do problema de que a ciência moderna padece desde o seu berço: o seu caráter fragmentário, já que existem mil disciplinas autônomas, com mil e uma especialidades, mas não existe um corpus de conhecimento. A física não sabe se o vidro é sólido ou líquido, a química tem certeza de que é sólido. Não existe uma definição do homem válida em todas as disciplinas, e de repente tivemos de aceitar (por força de lei) que mulheres têm pênis. Esse caráter fragmentário, creio eu, advém da influência que a magia renascentista teve sobre a constituição da ciência moderna: quando o edifício uno da filosofia escolástica foi destruído pela Revolução Copernicana, entraram em cena os homens da Renascença, que faziam tentativas ecléticas de construir conhecimento sem se preocupar com coerência, importando-se antes com a utilidade aparente. Além disso, a imensa influência da cabala na Renascença fez com que os homens de ciência colocassem em primeiro plano a meta de dominar a natureza para fazer “magia”, tal como Francis Bacon pretendia. Com o espírito da Renascença, a ciência abandona a pretensão universalista de descrever o todo e passa a procurar truques úteis.

Argumentei então que o mundo precisa restaurar o ideal original da universidade, que visava a constituir um conhecimento do todo (universum) que criasse um corpo coerente, em vez de continuarmos com disciplinas que não prestam contas umas às outras. Mesmo antes do advento do pós-modernismo, o atual estado de coisas é o do relativismo, já que cada disciplina tem a “sua” verdade.

Neste mês, temos visto a possibilidade de o neoateísmo ser um artifício propagandístico promovido por gente que, na verdade, quer privatizar os fenômenos não-explicáveis pelas ciências naturais. A plebe tem que ser ateia e guiar-se por um clero laico de divulgadores científicos, enquanto uns poucos iluminados têm um misterioso templo numa ilha privada, na qual se fazem as coisas mais horripilantes. Assim, devemos perguntar: qual é a atitude que a humanidade produtora de conhecimento deveria ter diante de fenômenos que não são explicáveis pelas ciências naturais?

A atitude atual creio que seja exatamente aquela promovida por David Hume (1711 – 1776) na Investigação sobre o entendimento humano. Aí ele defende que não se deve crer em nenhum relato de milagre, porque o testemunho de nenhuma autoridade humana deve ser superior ao testemunho que atesta a regularidade das leis naturais. Se todos os historiadores dissessem que a Rainha Elisabete morreu e dias depois ressuscitou, o homem de hoje teria de considerar que os historiadores estavam pregando uma peça, porque a experiência ensina que ninguém ressuscita, e nós devemos crer mais na experiência do que na palavra de terceiros. Ademais, os milagres não acontecem na Royal Society diante de cientistas, mas em meio à gente pobre e ignorante. Acontecem em rincões (como a Judeia), não em Roma à vista de todos. Se a experiência diz que a natureza nunca viola sua regularidade, diz também que os homens gostam de crer em relatos que despertam paixões – e isso explica não os milagres, mas a crença neles. Podemos dizer que o senso comum científico é esse: as leis da natureza não se suspendem jamais, então todo relato de milagre (ou, por extensão, de fenômenos demoníacos extraordinários) é fruto da mentira ou ignorância.

Alguns séculos após a morte de Hume, os métodos para documentar e analisar ocorrências miraculosas melhorou muito. Se a NASA analisou o manto de Guadalupe e não conseguiu encontrar alguma explicação natural para a maneira como foi feita, ou por que não se decompôs, não se trata mais de meros relatos que podem ser mentirosos. Além disso, os processos de canonização – que não são poucos desde o avanço da ciência – analisam reivindicações de milagres de potenciais santos. Ao badalado Carlo Acutis, por exemplo, foi atribuída a cura de um menino brasileiro que tinha uma deformidade no pâncreas – uma cura que não podia ser explicada pela medicina moderna. E aí ficamos assim: o senso comum científico é que não existem milagres, mas cientistas analisam rotineiramente alegações de milagres para o Vaticano.

Novamente, não existe nenhuma autoridade científica universal que determine que milagres existem ou que não existem. Tudo é subjetivo: se você é ateu, então para você com certeza não existem milagres; se você não é ateu, então para você talvez milagres existam. Mas se você disser que a terra tem 5 mil anos e que a evolução das espécies não existe, aí não pode, porque a ciência já deu o seu veredito sobre o assunto. Ora, talvez seja o caso de se perguntar se a ciência, enquanto corpo de conhecimento universal, não deveria ter uma posição sobre o assunto. O atual estado de coisas é do relativismo, o qual abre a possibilidade para a adoção de dogmas simplesmente errados por parte da maioria dos cientistas.

Um experimento engraçado foi feito por William Friedkin em seu documentário de 2017. William Friedkin (1935 – 2023) é famoso pelo seu filme O Exorcista, de 1973. Mais de 40 anos depois, ele soube que o exorcista da diocese de Roma, o Pe. Amorth, escreveu um livro de memórias no qual revela que O Exorcista é o seu filme predileto. Elogiou-o, ressalvando porém que os efeitos especiais são exagerados. Friedkin então entrou em contato com o Pe. Amorth, encontrou-o na Itália e pediu para filmar um exorcismo pela primeira vez na vida. O Pe. Amorth pediu um tempo para refletir e pouco depois conseguiu uma autorização – fato sem precedente. O combinado era que Friedkin iria filmar sozinho (isto é, sem equipe), com uma câmera pequena, a nona sessão de exorcismo de uma arquiteta na Itália.

E assim foi feito. O exorcista, nada lúgubre, é um velhinho bem humorado que gosta de fazer graça; a família da arquiteta está toda reunida, mais o namorado e uma porção de padres. Durante o ritual, ela se debate e se contorce, precisando ser segurada por homens, e ruge com uma voz que não é normal (é gutural e às vezes parece ser de várias pessoas). Respondendo às perguntas do exorcista, diz que se chama Satanás e é uma legião de 89 demônios.

Ato contínuo, Friedkin leva a gravação para a Ciência averiguar – na verdade, para três professores neurocirurgiões e um departamento de psiquiatria. Pergunta a todos o que a arquiteta tem, e se as suas respectivas especialidades poderiam resolver o problema dela. Dois neurocirurgiões, ambos da UCLA, não sabem o que ela tem e negam que possam resolver o problema dela. O primeiro, que é o mais normal, aponta que nunca viu coisa assim e que aquela voz não é deste mundo. Argumenta que ela está consciente e interage com as pessoas da sala, o que descarta um certo tumor que causa delírios. Em seguida, passa para a entrevista de um professor neurocirurgião de Tel-Aviv, que acha que pode ser um tumor e que ela pode estar delirando. Não menciona a voz, que é o que mais chama a atenção. Este último tem em comum com o segundo neurocirurgião da UCLA (que parece ser ateu) a crença de que a arquiteta só está naquela situação por causa da religião. Esse tipo de coisa pode acontecer com gente religiosa: um padre, com um rabino; em suma, com quem acredita. Ao que Friedkin pergunta ao israelense em que ele acredita, e ele fica incomodado. Embora não seja religioso, acredita que Deus existe no que não pode ser compreendido. Será um espinosano ambíguo como Sagan e Sam Harris? Até aqui, mesmo com um  crendo em Deus, temos dois neurocirurgiões que agem conforme a preceito humeano. O segundo neurocirurgião da UCLA pensa que talvez se trate de um fenômeno natural que, um dia, ainda será descoberto (como a radioatividade foi um dia), e acha que a arquiteta deve continuar com o exorcismo devido ao efeito placebo. Assim como uma pessoa pode se sentir melhor só por ter uma consulta com um psiquiatra que não prescreva remédios, uma pessoa religiosa pode se sentir melhor com um padre, e isso explicaria a eventual eficácia do exorcismo.

O momento mais divertido, porém, é o da reunião com o departamento de psiquiatria de Colúmbia. Ali aprendemos que ela tem a Desordem de Transtorno Dissociativo, e mostram um paper que atrela esse diagnóstico a pessoas que relatam possessão demoníaca e se submetem a exorcismos. Nessa reunião, Friedkin aprende que o DSM respeita a diversidade cultural e, como os relatos de possessão demoníaca ocorrem em várias culturas, “possessão demoníaca” está no DSM. Conforme já vimos em maior detalhe antes (usando o trabalho do psiquiatra Guido Palomba), o DSM não tem causalidade: ele lista uma série de sintomas e dá um nome a uma síndrome que tem um protocolo de tratamento.

Nomear é fácil. E quanto ao tratamento? Um jovem médico se pronunciou. Relatar possessão demoníaca é algo que ocorre entre pessoas religiosas, e ele tem uma paciente protestante muito parecida com aquela da gravação. Inclusive tem aquela voz estranha – o jovem médico e o cirurgião normal são os únicos a destacar a coisa que mais chama a atenção na gravação. Pois a paciente tem feito terapia e tomado medicamentos e está melhor. Fica-se com a impressão de que, se um psiquiatra tiver uma paciente girando a cabeça 360º como no filme, fará terapia e tomará remédios. Ao cabo, os psiquiatras dizem que a arquiteta tem solução (terapia e remédio), enquanto os neurocirurgiões disseram que não.

Por outro lado, no documentário vê-se que tudo isso começou por causa da universidade. William Peter Blatty (1928 – 2017), autor do livro O Exorcista em que o filme se baseia, teve aulas de teologia com um jesuíta na Universidade de Georgetown, em Washington, e ouviu a história da possessão demoníaca de um adolescente ocorrida em 1949, em Maryland, numa família luterana. O menino de 14 anos dizia estar possuído, a família procurou médicos e psiquiatras, mas acabou recorrendo aos serviços da Igreja Católica, que enviou um padre de Washintgon para realizar o exorcismo. Blatty foi atrás da história e do padre, mas não conseguiu contato com a família do garoto, que queria manter sigilo máximo sobre a história. O fato de que uma família luterana procurou a Igreja Católica sugere que os cientistas estavam errados ao crerem que a eficácia, explicada como placebo, depende da afinidade cultural.

Pois bem: aí se vê bem o estado de coisas da universidade. Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais. Já as outras não dizem nada, mas têm um senso comum tácito, chancelado pela mídia, segundo o qual não existem em hipótese alguma. Cada um crê no que quiser.

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Universities, miracles and relativism https://strategic-culture.su/news/2026/02/24/universities-miracles-and-relativism/ Tue, 24 Feb 2026 13:46:19 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890772 A discipline – a much despised discipline, and whose content varies depending on the institution – says that miracles and demonic actions can be real, writes Bruna Frascolla.

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Last month, I dealt with the problem that modern science has suffered from since its birth: its fragmentary nature, since there are a thousand autonomous disciplines, with a thousand and one specialties, but there is no corpus of knowledge. Physics doesn’t know if glass is solid or liquid, chemistry is sure it is solid. There is no one definition of man that is valid across all disciplines, and suddenly we had to accept (by force of law) that women have penises. This fragmentary character, I believe, comes from the influence that Renaissance magic had on the constitution of modern science: when the unified edifice of scholastic philosophy was destroyed by the Copernican Revolution, Renaissance men entered the scene, who made eclectic attempts to construct knowledge without worrying about coherence, caring rather about apparent usefulness. Furthermore, the immense influence of the Kabbalah in the Renaissance caused men of science to put at the forefront the goal of dominating nature to create “magic”, as Francis Bacon intended. With the spirit of the Renaissance, science abandons the universalist claim to describe the whole and starts looking for useful tricks.

I then argued that the world needs to restore the original ideal of the university, which aimed to constitute knowledge of the whole (universum) that created a coherent body, instead of continuing with disciplines that are not accountable to each other. Even before the advent of postmodernism, the current state of affairs is that of relativism, since each discipline is entitled to its own truth.

This month, we have seen the possibility that New Atheism is a propaganda device promoted by people who, in fact, want to privatize phenomena that cannot be explained by natural sciences. The common people have to be atheists and be guided by a secular clergy of scientific popularizers, while a few enlightened people have a mysterious temple on a private island, where the most horrifying things are done. Thus, we must ask: what is the attitude that knowledge-producing humanity should have when faced with phenomena that are not explainable by natural sciences?

The current attitude I believe is exactly that promoted by David Hume (1711 – 1776) in the Inquiry into Human Understanding. There he argues that no report of miracles should be believed, because the testimony of any human authority should be superior to the testimony that attests to the regularity of natural laws. If all historians said that Queen Elizabeth died and was resurrected a few days later, today’s man would have to consider that historians were playing a trick, because experience teaches that no one is resurrected, and we should believe experience more than the words of others. Furthermore, miracles do not happen in the Royal Society in front of scientists, but among poor and ignorant people. They happen in remote places (like Judea), not in Rome in plain sight. If experience says that nature never violates her regularity, it also says that men like to believe in reports that arouse passions – and this explains not miracles, but the belief in them. We can say that scientific common sense is this: the laws of nature are never suspended, so every report of miracles (or, by extension, of extraordinary demonic phenomena) is the result of lies or ignorance.

A few centuries after Hume’s death, methods for documenting and analyzing miraculous occurrences greatly improved. If NASA analyzed Guadalupe’s mantle and couldn’t find any natural explanation for how it was made, or why it didn’t decompose, the issue is no longer about mere reports that could be untrue. Furthermore, canonization processes – which are not few since the advancement of science – analyze potential saints’ claims of miracles. The famous Carlo Acutis, for example, was credited with curing a Brazilian boy who had a deformity in his pancreas – a healing that could not be explained by modern medicine. And so we are left with this: scientific common sense is that there are no miracles, but scientists routinely analyze claims of miracles for the Vatican.

Again, there is no universal scientific authority that determines that miracles exist or not. Everything is subjective: if you are an atheist, then fou you miracles certainly do not exist; if you are not an atheist, then for you maybe miracles exist. But if you say that the earth is 5 thousand years old and that the evolution of species does not exist, then you are wrong, because science has already given its verdict on the matter. Now, perhaps it is worth asking whether science, as a body of universal knowledge, should not have a position on the subject. The current state of affairs is one of relativism, which opens the possibility for the adoption of simply wrong dogmas by the majority of scientists.

A funny experiment was done by William Friedkin in his 2017 documentary. William Friedkin (1935 – 2023) is famous for his 1973 film The Exorcist. More than 40 years later, he learned that the exorcist of the diocese of Rome, Father Amorth, wrote a memoir in which he reveals that The Exorcist is his favorite movie. He praised it, noting however that the special effects are exaggerated. Friedkin then contacted Father Amorth, met him in Italy and asked to film an exorcism for the first time in his life. Father Amorth asked for time to reflect and shortly after obtained authorization – an unprecedented event. The agreement was that Friedkin would film alone (that is, without a crew), with a small camera, the ninth exorcism session of an architect in Italy.

And so it was done. The exorcist, not at all lugubrious, is a good-humoured old man who likes to be funny; the architect’s family is all together, plus her boyfriend and a bunch of priests. During the ritual, she struggles and writhes, needing to be held by men, and roars with a voice that is not normal (it is guttural and sometimes sounds like it belongs to several people). Responding to the exorcist’s questions, she says her name is Satan and she is a legion of 89 demons.

Next, Friedkin takes the recording to Science to investigate – in fact, to three neurosurgeon professors and a psychiatry department. He asks everyone what the architect has, and whether their respective specialties could solve her problem. Two neurosurgeons, both from UCLA, don’t know what she has and deny that they can solve her problem. The first, which is the most normal guy, points out that he has never seen anything like that, and that such voice is not from this world. He argues that she is conscious and interacts with the people in the room, which rules out a certain tumor that causes delusions. The film then moves on to an interview with a neurosurgeon professor from Tel-Aviv, who thinks it might be a tumor and that she might be delusional. He doesn’t mention the voice, which is what draws the most attention. The Israeli has in common with the second neurosurgeon at UCLA (who seems to be an atheist) the belief that the architect is only in that situation because of religion. This kind of thing can happen to religious people: a priest, a rabbi; in short, with those who believe. To which Friedkin asks the Israeli what he believes, and he becomes uncomfortable. Although he is not religious, he believes that God exists in what cannot be understood. Is he an ambiguous Spinozan like Sagan and Sam Harris? So far, even though one believes in God, we have two neurosurgeons who act according to Humean precepts. The second neurosurgeon at UCLA thinks that perhaps it is a natural phenomenon that will one day be discovered (like radioactivity once was), and thinks that the architect should continue with the exorcism due to the placebo effect. Just as a person can feel better just by having an appointment with a psychiatrist who does not prescribe medication, a religious person can feel better with a priest, and this would explain the eventual effectiveness of exorcism.

The funniest moment, however, is the meeting with the Columbia psychiatry department. There we learn that she has Dissociative Trance Disorder, and they show a paper that links this diagnosis to people who report demonic possession and undergo exorcisms. At this meeting, Friedkin learns that the DSM respects cultural diversity, and because reports of demonic possession occur in many cultures, “demonic possession” is in the DSM. As we have seen in greater detail before (using the work of psychiatrist Guido Palomba), the DSM does not have causality: it lists a series of symptoms and gives a name to a syndrome which has a protocol of treatment.

Naming is easy. What about treatment? A young doctor spoke up. Reporting demonic possession is something that occurs among religious people, and he has a Protestant patient very similar to the one in the recording. She even has that strange voice – the young doctor and the normal surgeon are the only ones to highlight the thing that catches the most attention in the recording. Well, the patient has been undergoing therapy and taking medication and is getting better. One gets the impression that, if a psychiatrist has a patient turning her head 360º like in the movie, she will undergo therapy and take medication. In the end, the psychiatrists say that the architect has a solution (therapy and pills), while the neurosurgeons said no.

On the other hand, in the documentary you see that all this started because of the university. William Peter Blatty (1928 – 2017), author of the book The Exorcist on which the film is based, took theology classes with a Jesuit at Georgetown University, in Washington, and heard the story of the demonic possession of a teenager that occurred in 1949, in Maryland, in a Lutheran family. The 14-year-old boy claimed to be possessed, the family sought doctors and psychiatrists, but ended up using the services of the Catholic Church, which sent a priest from Washington to perform the exorcism. Blatty went after the story and the priest, but was unable to reach the boy’s family, who wanted to keep the story as confidential as possible. The fact that a Lutheran family turned to the Catholic Church suggests that scientists were wrong in believing that efficacy, explained as placebo, depends on cultural affinity.

Well, that clearly shows the state of affairs at the university. A discipline – a much despised discipline, and whose content varies depending on the institution – says that miracles and demonic actions can be real. The others say nothing, but have a tacit common sense, endorsed by the media, according to which they do not exist under any circumstances. Everyone believes what they want.

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Il crollo accelerato https://strategic-culture.su/news/2026/02/02/il-crollo-accelerato/ Sun, 01 Feb 2026 22:03:19 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890365 Eppure stiamo assistendo al crollo accelerato dei principali pilastri di quella che un tempo era considerata la civiltà occidentale.

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Dostoevskij esprime un pensiero molto lungimirante nel suo “Diario di uno scrittore”. Afferma che il crollo dell’Occidente (“Europa”, nel linguaggio degli intellettuali russi del suo tempo) avverrà all’improvviso e precipitosamente. L’audace previsione di Dostoevskij, scritta oltre centocinquant’anni fa, deve essere sembrata fantasiosa ai suoi lettori per almeno due motivi.

In primo luogo, nel contesto del periodo in cui fu formulata quella previsione, a metà del XIX secolo, in apparenza c’erano ben pochi elementi a sostegno dell’idea che l’Occidente si stesse avvicinando al collasso, graduale o accelerato che fosse. Al contrario, stava progredendo e acquisendo forza nella scienza, nell’industria e in ogni altro campo significativo dell’attività umana. Considerato collettivamente, come il concerto delle Grandi Potenze di quel tempo, l’Occidente stava esercitando un dominio globale incontrastato. Nei secoli precedenti era stato in continua ascesa e non si vedeva alcuna potenza in grado di limitare o invertire la sua supremazia. Rendeva omaggio esteriore ai principi cristiani, così come li intendeva e li praticava, e ne traeva sostegno morale. Le sue istituzioni sociali e politiche apparivano solide, e la sua potenza militare combinata era sufficiente a sottomettere e mantenere in uno stato di impotente dipendenza molte civiltà e imperi “pagani” un tempo potenti. All’epoca in cui Dostoevskij e altri pensatori russi slavofili con idee simili mettevano in dubbio la durata dell’impresa occidentale, l’idea di una sua fine era difficilmente concepibile.

In secondo luogo, e sempre per le ragioni sopra esposte, la previsione più specifica di Dostoevskij, secondo cui il crollo del sistema globale apparentemente inattaccabile incentrato sull’Occidente non solo era certo, ma sarebbe stato anche relativamente rapido e improvviso, all’epoca in cui fu pubblicata doveva sembrare ancora meno probabile.

Eppure stiamo assistendo al  crollo accelerato dei principali pilastri  di quella che un tempo veniva considerata la civiltà occidentale, e ciò si sta verificando in un modo che ricorda notevolmente la struttura degli eventi descritta da Dostoevskij.

Il collasso morale, simboleggiato da un radicale distacco e  persino dal netto ripudio  dei fondamenti metafisici che l’Occidente rivendicava come propria eredità, è evidente. È stato confermato da due eventi pubblicamente orchestrati e deliberatamente blasfemi: le  cerimonie olimpiche di Parigi del 2024  e i festeggiamenti per l’  apertura della galleria di base del San Gottardo  in Svizzera nel 2016. Va notato che l’unico attore importante a protestare ufficialmente contro la blasfemia di Parigi è stato l’Iran, musulmano sciita.

I crolli in altri ambiti sono altrettanto impressionanti, con i pilastri della civiltà che si sgretolano uno dopo l’altro. Sul piano sociale,  le popolazioni native vengono sostituite dal massiccio afflusso di “migranti”  provenienti da altre parti del mondo che non condividono la loro cultura, i loro valori e persino la loro lingua. Contemporaneamente, si sta verificando una catastrofe demografica perché il tasso di natalità dei nuovi arrivati ​​supera di gran lunga quello dei nativi, preannunciando l’estinzione di questi ultimi o, nella migliore delle ipotesi, la loro riduzione a una minoranza emarginata nelle loro ex terre d’origine. Dal punto di vista culturale, non si produce quasi più nulla di rilevante. Con il dissolversi dello scopo collettivo, la vita perde significato e valore intrinseco. “Soluzioni” precedentemente impensabili alle sfide e allo stress della vita, come gli enormi  programmi statali per il suicidio in Canada , stanno diventando comuni e persino attraenti.

In ambito politico, il divario tra l’élite dominante e le masse inerti, il cui destino è dettato dai governanti alienati, non è mai stato così grande. L’elenco dei segnali inquietanti potrebbe essere esteso. Le menti più acute sono profondamente consapevoli della situazione e delle sue terribili implicazioni. Di recente, Paul Craig Roberts ha posto la domanda cruciale:  come siamo arrivati ​​a questo punto così in fretta ? Altri analisti autorevoli, come Dmitry Orlov, hanno proposto  modelli esplicativi  del processo di collasso basati sull’esperienza di precedenti fallimenti imperialistici e di civiltà.

Tutte le tendenze citate sono di pessimo auspicio per la civiltà che influenzano. C’è però un fallimento che a prima vista potrebbe non sembrare molto significativo, ma che emerge perché indica il declino cognitivo dell’Occidente. Tale declino, che paralizza il pensiero, aggrava cumulativamente gli effetti dei crolli negli altri ambiti.

L’episodio che metteremo in evidenza incarna la follia normalizzata di una società moribonda. La  messa in scena  è un’udienza di una sottocommissione del Senato degli Stati Uniti convocata per raccogliere prove sulla sicurezza e la regolamentazione delle pillole abortive. L’udienza si sarebbe probabilmente svolta regolarmente se l’ostetrica Dott.ssa Nisha Verma non fosse stata invitata a testimoniare su alcune questioni relative alla gravidanza. Nel presentare la sua testimonianza, si è sforzata di apparire politicamente corretta e di evitare di insinuare che la gravidanza sia una condizione che colpisce esclusivamente le donne. Quando il senatore Joshua Hawley [R. – Missouri] è stato il suo turno di interrogare la Dott.ssa Verma, le ha chiesto direttamente di chiarire per la cronaca, in qualità di medico e scienziato, la sua posizione su tale questione: gli uomini possono rimanere incinti?

Durante il successivo scambio di battute  con la senatrice Hawley, questa ostetrica-ginecologa che si vanta di un dottorato in medicina e che presumibilmente ha familiarità con l’anatomia umana ed è esperta in questioni riproduttive, è rimasta straordinariamente evasiva. Si è ostinatamente rifiutata di rispondere con un semplice “sì” o “no” a una domanda che non richiedeva alcuna credenziale accademica. Il video della sua testimonianza dovrebbe essere considerato criticamente, non solo per la sua innegabile assurdità, ma soprattutto come prova sconcertante di una negazione ideologica di fatti empirici evidenti e di per sé ormai pericolosamente diffusa.

La dottoressa Verma era ovviamente a disagio e persino spaventata mentre cercava stratagemmi evasivi per deviare la domanda di buon senso del senatore Hawley. Il fatto che sia di origine indiana, sebbene a giudicare dal suo accento sia nata e cresciuta in America, suggerisce che per lei l’idea di una gravidanza maschile sia probabilmente culturalmente sgradevole quanto lo sarebbe per qualsiasi persona normale nel subcontinente indiano. Il suo nervosismo suggerisce che in fondo conosce perfettamente la risposta corretta alla domanda del senatore, ma è professionalmente e socialmente intimidita dal dichiararla pubblicamente.

Se così fosse, non farebbe una bella figura sulla sua integrità professionale. Ma è assolutamente dannoso per la cultura che, in un contesto pubblico, quando si soppesano questioni importanti, rende personalmente rischioso dire la verità.

E non c’è dubbio, almeno per quanto riguarda la questione specifica della gravidanza maschile, che i fatti non siano solo ben noti, ma siano persino prontamente ammessi, purché non influenzino le chimere ideologiche dominanti. Ne è prova l’affascinante clip su YouTube sulle “quindici  differenze tra gatti maschi e femmine “. Gli amanti dei gatti lo apprezzeranno. Quando si tratta di gatti, non c’è equivoco, confusione di ruoli maschili e femminili o attribuzione errata di funzioni biologiche. L’idea che i gatti maschi rimangano incinti non viene presa in considerazione, nemmeno teoricamente. Ci si chiede come reagirebbe la dottoressa Verma se la domanda che le viene posta venisse riformulata: i gatti maschi possono rimanere incinti? O le cicogne maschi, o i millepiedi maschi?

Da una risposta obbligatoria “sì” con riferimento ai maschi umani alla stessa risposta obbligatoria con riferimento ai gatti o ai cani maschi, la distanza è breve. Con la normalizzazione della follia forzata, che è l’aspetto cognitivo del collasso, questa distanza si sta riducendo rapidamente.

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The accelerated collapse https://strategic-culture.su/news/2026/01/29/the-accelerated-collapse/ Thu, 29 Jan 2026 13:43:29 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890294 Yet we are witnessing the accelerated collapse of the major props of what used to be regarded as the Western civilisation.

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Dostoevsky delivers a very prescient thought in his “Diary of a writer”. He states that the collapse of the West (“Europe,” in the parlance of Russian intellectuals of his day) will occur suddenly and precipitously. Dostoevsky’s bold prognosis, written over a hundred fifty years ago, must have struck his readers as fanciful for at least two reasons.

Firstly, in the context of the period when that prediction was made, mid-nineteenth century, on the surface there was very little to support the notion that the West was approaching collapse, whether gradual or accelerated. Quite the contrary, it was advancing and gathering strength in science, industry, and every other significant field of human endeavour. Viewed collectively, as the concert of the Great Powers of that day, the West was exerting unchallenged global dominance. Over the preceding centuries it had been on the ascendant continuously and no power was in sight capable of limiting or reversing its supremacy. It paid outward homage to and drew moral sustenance from Christian principles as it understood and practiced them. Its social and political institutions appeared solid, and its combined military power was sufficient to subdue and keep in a state of impotent dependence many formerly mighty “heathen” civilisations and empires. At the time that Dostoevsky and other likeminded Russian Slavophile thinkers were questioning the durability of the Western enterprise, the thought of its demise was scarcely conceivable.

Secondly, and also for the above reasons, Dostoevky’s more specific prediction that the crumbling of the seemingly unassailable West-centric global system was not just certain but would be relatively quick and sudden, at the time it was published must have sounded even less likely.

Yet we are witnessing the accelerated collapse of the major props of what used to be regarded as the Western civilisation, and it is occurring in a manner that resembles remarkably the framework of events that Dostoevsky described.

The moral collapse, symbolised by radical distancing and even straightforward repudiation of the metaphysical foundations that the West used to claim as its heritage, is self-evident. It was confirmed by two publicly orchestrated and deliberately blasphemous events, the 2024 Paris Olympic ceremonies and festivities marking the opening of the Gotthard base tunnel in Switzerland in 2016. It may be noted that the only major actor to officially protest the Paris blasphemy was Shiite Muslim Iran.

Breakdowns in other areas are equally striking, as civilizational props crumble one after another. On the social plane, native populations are being replaced by the massive influx of “migrants” from other parts of the world who do not share their culture, values, or even language. Concomitantly, a demographic catastrophe is taking place because the birth-rate of the newcomers greatly exceeds that of the natives, portending the latter’s extinction or at best reduction to the status of a disenfranchised minority status in their former homelands. In culture, scarcely anything of note is being produced any more. As collective purpose evaporates, life loses meaning and inherent value. Previously unthinkable “solutions” to the challenges and stresses of living, such as the huge state-sponsored suicide programmes in Canada, are becoming common and even attractive.

In the realm of politics, the chasm between the ruling elite and the inert masses whose destiny the alienated rulers are directing has never been greater. The list of ominous signs could be extended. Sharper minds are keenly aware of the situation and its dire implications. Just recently, Paul Craig Roberts posed the critical question: How did we get here so fast?  Other serious analysts, such as Dmitry Orlov, have proposed explanatory models for the collapse process based on the experience of previous imperial and civilizational failures.

All of the cited trends bode ill for the civilisation they affect. There is one failure however that at first glance may not appear very significant but it stands out because it points to the West’s cognitive decline. That decline, which paralyses thinking, compounds cumulatively the effects of breakdowns in the other domains.

The episode we will highlight epitomises the normalised insanity of a moribund society. The mise en scène is a US Senate subcommittee hearing convoked to elicit evidence on the safety and regulation of abortion pills. The hearing would probably have passed routinely if obstetrician Dr. Nisha Verma had not been invited to testify on certain pregnancy-related issues. In presenting her evidence, she took great pains to sound politically correct and to avoid suggesting that pregnancy is a condition that exclusively affects women. When Sen. Joshua Hawley [R. – Missouri] took his turn to question Dr. Verma he asked her directly to clarify for the record, as a medical doctor and a scientist, her position on that issue: Can men get pregnant?

Throughout the ensuing exchange with Sen. Hawley, this obstetrician-gynaecologist who claims a medical doctorate, and who presumably is familiar with human anatomy and versed in reproductive matters, remained extraordinarily evasive. She refused stubbornly to respond with a simple “yes” or “no” to a question that did not require any academic credentials to answer. The video clip of her testimony should be viewed critically, not just for its undeniable ludicrousness, but more to the point as disconcerting evidence of ideological denial of self-evident, empirical facts that has gone dangerously mainstream.

Dr. Verma was obviously uncomfortable and even frightened as she sought evasive stratagems to deflect Sen. Hawley’s common sense question. The fact that she is of Indian origin, although judging by her accent she is American-born and bred, suggests that to her the notion of male pregnancy probably is as culturally unpalatable as it would be to every normal person in the Indian subcontinent. Her nervousness hints that deep down she knows perfectly the correct answer to the senator’s question but is professionally and socially intimidated to state it publicly.

If that is the case, it does not reflect favourably on her professional integrity. But it is absolutely damning for the culture that in a public setting, when important issues are being weighed, makes it personally hazardous to speak the truth.

And there is little doubt, at least with regard to the narrow issue of male pregnancy, that the facts are not just well known but are even readily admitted so long as they do not impact the regnant ideological chimeras. Evidence for that is the charming clip on YouTube about “fifteen differences between male and female cats.” Cat lovers will appreciate it. Where cats are concerned, there is no equivocation, conflation of male and female roles, or misattribution of biological functions. The notion of male cats getting pregnant is not entertained, even theoretically. One wonders how Dr. Verma would react if the question put to her were reformulated: Can male cats get pregnant? Or male storks, or male centipedes?

From an obligatory “yes” answer with reference to human males to the same required answer with reference to male cats or dogs, the distance is short. With the normalisation of enforced lunacy, which is the cognitive aspect of collapse, that distance is decreasing rapidly.

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The homeland of Malthus and Mill aborts a third of its pregnancies https://strategic-culture.su/news/2026/01/23/the-homeland-of-malthus-and-mill-aborts-a-third-of-its-pregnancies/ Fri, 23 Jan 2026 10:19:50 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890190 Less than two hundred years later, the remaining English people can see the legacy of Mill’s social philosophy.

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The abortion statistics for 2023 in Great Britain, a country where women can go to state hospitals to have the procedure up to the sixth month of pregnancy, have been released belatedly. (It is usually read as 24 weeks, so we need to do the math to get a shock.) There were 299,614 abortions in a single year, almost 300,000.

English speakers are the kings of statistics, and they have a lot of graphs and tables that detail this social calamity well. First of all, we see that they recorded the “ethnicity” of 92% of former pregnant women, and that of that percentage, 74% were white. The number of former pregnant women who repeated the practice increased to 42%, and more than half of the patients in their 30s had already had another abortion. The age group in which abortion increased the most was 35 years or older, accounting for 51,595 abortions.

As for the reasons, there is a somewhat confusing list of seven “grounds” for abortion coded with letters of the alphabet. There is no list of rapes; a raped woman would fall under grounds that include “emotional injury” caused by the continuation of the pregnancy. Nor is there the simple will of the mother, which certainly exists in a country where one can abort in this way. Thus, the logical conclusion is that the notion of subjective harm encompasses both women who have been raped and those who would be upset for not being able to go to parties, or who would fear not being able to give their child the standard of living deemed necessary. It is likely that rape falls under G, “to prevent grave permanent injury to the physical or mental health of the pregnant woman”, given the permanent nature of mental harm.

To make our lives easier, 98% of abortions were based solely on ground C, described as follows: “the pregnancy has not exceeded its 24th week and that the continuance of the pregnancy would involve risk, greater than if the pregnancy were terminated, of injury to the physical or mental health of the pregnant woman.” It’s a slippery way of saying that the pregnant woman would simply be happier if the child were not born, and not that abortion makes her free from some serious and permanent injury (which is how a raped woman might see the issue). As for the remaining 2%, ground E accounts for 1%, and consists of “substantial risk that, if the child were born, it would suffer from such physical or mental abnormalities as to be seriously handicapped.” In other words, eugenics.

Thus, we can say that indigenous British women, those who do not descend from the wave of immigration from the third world, use abortion as a contraceptive method, and they do so at a time in their lives when they should already have their professional lives defined. It’s a profile that common sense could predict, and for that very reason it was denied by pro-abortion propaganda, according to which abortion is an extremely difficult choice for every woman, so it would never become a simple contraceptive method, and needs to be legalized because young women need abortion to be able to study and become CEOs. In reality, it’s easier for a woman to have an abortion because she’s already a CEO.

Moral issues aside, a Telegraph article pointed out what matters. After arguing that the UK’s economic problems stem from a demographic deficit that cannot be solved with immigration (especially since immigrants also have few children), columnist Miriam Cates asks: “How has Britain become the abortion capital of Europe? Both pro-choice and pro-life campaigners often frame their arguments around individual rights. Should a woman have the right to end her pregnancy? Should a baby in the womb have the right to life? But abortion is no longer simply a matter for the individual; when a third of Britain’s potential citizens are being lost each year, it has become an issue of national concern.”

In fact, it is evident that birth rate is an important collective issue. Modern heads of state know this very well, so much so that Henry Kissinger created NSSM-200, advising the US to promote birth rate reduction in potential rival powers, even before they became powers (such as Brazil, Colombia, India, Egypt). In England, the homeland of Malthusianism, no effort was needed: the local elites took it upon themselves to promote abortion.

England is the homeland of Malthus. Even before the Anglican clergyman was born and developed his nefarious theory regarding demography, England had an atypical history in which population reduction actually led to the enrichment of the population. (I am referring to the fact that the plague gave more space to pasture and thus enriched the nobles who produced wool in the Middle Ages, a fact discussed in this previous article.) It was in the 19th century, however, that John Stuart Mill coined the type of approach described by Miriam Cates: transforming a social issue into terms of individual freedom.

In chapter 5 of On Liberty, Mill gives two maxims for applying his principles, and they are: “first, that the individual is not accountable to society for his actions, in so far as these concern the interests of no person but himself. Advice, instruction, persuasion, and avoidance by other people if thought necessary by them for their own good, are the only measures by which society can justifiably express its dislike or disapprobation of his conduct. Secondly, that for such actions as are prejudicial to the interests of others, the individual is accountable, and may be subjected either to social or to legal punishment, if society is of opinion that the one or the other is requisite for its protection.”

In the first of these principles, we have the prevailing liberal morality, according to which it is very wrong to “meddle in other people’s lives,” and bizarre figures are conceived, such as that of the “virtuous pedophile” (one who feels sexual attraction to children, but supposedly does not go so far as to abuse them). The second of these principles, less important, serves to reinforce liberal morality when it considers itself the bearer of truth. For example, it is bad for society that the poor bring children into the world, so the state should be able to impose financial burdens on them, forcing them to pay for compulsory education. (And education should be compulsory because a liberal, who is fundamentally a technocrat, believes that this is in the interest of society.) These things on child raising are also in chapter 5 of On Liberty.

However, there is a situation in which these two principles can clash, and that is that of trade Mill admits that “trade is a social act” and, as such, must be subject to social regulation. He emphasizes that “society admits no right, either legal or moral, in the disappointed competitors, to immunity from this kind of suffering”, as he is a defender of free trade, in which society wins by buying cheap things (geopolitical issues do not exist). Thus, the situation in which the two principles can clash is when the merchant makes money from something contrary to the interest of society, such as a gambling house or a brothel. Commenting on the prohibition of opium imports and restrictions on the sale of poison, Mill says: “These interferences are objectionable, not as infringements on the liberty of the producer or seller, but on that of the buyer.” The work is from 1859, but it already presents the basic argument for the legalization of drugs, abortion, and everything that is antisocial: it is a matter of individual freedom, and it is wrong to interfere with the lives of others.

In the same chapter, Mill also considers that it is good for the poor to have fewer children so that the working class does not multiply and, thus, the law of supply and demand guarantees workers a better wage. A position that reconciles liberalism and Malthusianism, doctrines that combine so well that they have amalgamated into social Darwinism.

Less than two hundred years later, the remaining English people can see the legacy of Mill’s social philosophy.

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A pátria de Malthus e Mill aborta um terço das gravidezes https://strategic-culture.su/news/2026/01/22/a-patria-de-malthus-e-mill-aborta-um-terco-das-gravidezes/ Thu, 22 Jan 2026 15:21:04 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890180 Menos de duzentos anos depois, os ingleses que sobraram podem ver o legado da filosofia social de Mill.

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Saíram, atrasadas, as estatísticas de aborto referentes ao ano de 2023 na Grã-Bretanha, país onde as mulheres podem ir ao hospital estatal para fazer o procedimento até o sexto mês da gravidez. (Normalmente lê-se 24 semanas, então precisamos fazer as contas para tomar um susto.) Foram 299.614 abortos num único ano, quase 300 mil.

Os anglófonos são os reis da estatística, e têm uma porção de gráficos e tabelas que detalhem bem essa calamidade social. Em primeiro lugar, vemos que eles anotaram a “etnicidade” de 92% das ex-gestantes, e que desse percentual, 74% eram brancas. A quantidade de ex-grávidas que reincidiam na prática aumentou para 42%, e mais da metade das pacientes na casa dos 30 já tinham feito outro aborto. A faixa etária na qual o aborto mais cresceu foi a de 35 anos ou mais, responsável por 51.595 abortos.

Quanto aos motivos, há uma listagem meio confusa de sete “fundamentos” para o aborto codificados com letras do alfabeto. Não há listagem de estupros; uma mulher estuprada cairia em fundamentos que incluem “injúria emocional” causada pela continuidade da gestação. Tampouco há a simples vontade da mãe, a qual com certeza existe num país em que se pode abortar desse jeito. Assim, a conclusão lógica é que a noção de dano subjetivo abarca tanto as mulheres que foram estupradas, quanto as que ficariam aborrecidas por não poderem ir a festas ou que temeriam não ter condições de dar ao filho o padrão de vida julgado necessário. O provável é que o estupro caia no G, “para impedir grave injúria permanente à saúde física ou mental da grávida”, dado o caráter permanente do dano mental.

Para facilitar a nossa vida, 98% dos abortos tiveram somente o fundamento C, descrito assim: “a gravidez não ultrapassou a 24ª semana e a continuidade da gravidez envolveria um risco, maior do que se a gravidez fosse interrompida, de injúria para a saúde física ou mental da grávida.” É um jeito ensaboado de dizer que a grávida seria apenas mais feliz caso o filho não nascesse, e não que ela fica livre de alguma injúria grave e permanente com o aborto (que é como uma mulher estuprada talvez enxergue a questão). Quanto aos 2% restantes, o fundamento E concentra 1%, e consiste em “risco substancial de que, se a criança nascer, sofrerá de anomalias físicas ou mentais de modo a ser seriamente deficiente”. Noutras palavras, eugenia.

Assim, podemos dizer que as britânicas indígenas, aquelas que não descendem da onda imigratória do terceiro mundo, usam o aborto como método contraceptivo, e fazem-no numa altura da vida em que já devem ter as suas vidas profissionais definidas. É um perfil que o senso comum conseguia prever, e por isso mesmo era negado pela propaganda pró aborto, segundo a qual o aborto é uma escolha dificílima para toda mulher, por isso jamais viraria um simples método contraceptivo, e precisa ser legalizado porque as jovenzinhas precisam do aborto para poderem estudar e virar CEOs. Na realidade, é mais fácil uma mulher abortar porque ela já é CEO.

Questões morais à parte, um artigo do Telegraph apontou aquilo que interessa. Após defender que os problemas econômicos do Reino Unido decorrem de um déficit demográfico que não pode ser resolvido com imigração (inclusive porque os imigrantes também têm poucos filhos), a articulista Miriam Cates pergunta: “Como a Grã-Bretanha se tornou a capital do aborto na Europa? Tanto os pró-escolha quanto os pró-vida amiúde formulam seus argumentos em torno de direitos individuais. Uma mulher deveria ter o direito de interromper a gravidez? Um bebê no útero ter o direito à vida? Mas o aborto não é mais uma simples questão para o indivíduo. Quando um terço dos potenciais cidadãos britânicos estão sendo perdidos a cada ano, isso se torna uma questão de interesse nacional.”

Na verdade, é evidente que a natalidade é uma importante questão coletiva. Os chefes de Estado modernos sabem muito bem disso, tanto que Henry Kissinger fez o NSSM-200, aconselhando os EUA a fomentarem a redução da natalidade em possíveis potências rivais, antes mesmo de se tornarem potências (como o Brasil, a Colômbia, a Índia, o Egito). Já na Inglaterra, pátria do malthusianismo, não foi necessário nenhum esforço: as elites locais se incumbiram de promover o aborto por conta própria.

A Inglaterra é a pátria de Malthus. Antes mesmo de o clérigo anglicano nascer e fazer sua nefasta teoria relativa à demografia, a Inglaterra tinha uma história atípica na qual a redução populacional de fato causou o enriquecimento da população. (Refiro-me ao fato de a peste ter dado maior espaço ao pasto e assim enriquecido os nobres que produziam lã na Idade Média, fato abordado previamente neste texto.) Foi no século XIX, porém, que John Stuart Mill cunhou o tipo de abordagem descrito por Miriam Cates: transformar uma questão social em termos de liberdade individual.

No capítulo 5 de Sobre a liberdade, Mill dá duas máximas para aplicar os seus princípios, e elas são: “primeiro, que o indivíduo não precisa prestar contas à sociedade por suas ações caso não digam respeito a ninguém além de si mesmo. Recomendação, instrução, persuasão e distanciamento por parte de outras pessoas, se considerarem isso necessário para seu próprio bem, são as únicas medidas com as quais a sociedade pode, justificadamente, expressar seu desagrado com sua conduta, ou sua desaprovação. Segundo, que, pelas ações que sejam prejudiciais aos interesses de outros, o indivíduo pode ter de prestar contas, e pode ser submetido a punição social ou legal, se a sociedade for de opinião de que uma ou outra é requisito necessário a sua proteção.”

No primeiro desses princípios, temos a moralidade liberal vigente, segundo a qual é muito errado “cuidar da vida dos outros”, e se concebe figuras bizarras como a do “pedófilo virtuoso” (aquele que sente atração sexual por crianças, mas supostamente não chega a abusá-las). O segundo desses princípios, menos importante, serve para reforçar a moral liberal quando ela se considera portadora da verdade. Por exemplo, é ruim para a sociedade que os pobres coloquem filhos no mundo, então o Estado deve poder dar-lhes ônus financeiros, forçando-os a pagar pela educação compulsória. (E a educação deve ser compulsória porque o liberal, que no fundo é um tecnocrata, julga que esse é do interesse da sociedade.) Essas coisas sobre filhos também estão no capítulo 5 do Sobre a liberdade.

No entanto, há uma situação em que esses dois princípios podem se chocar, e é o do comércio. Mill admite que “o comércio […] é um ato social” e, como tal, deve estar sujeito à regulação social. Frisa que “a sociedade não admite que concorrentes desapontados tenham direito, legal ou moral, a imunidade quanto a esse tipo de sofrimento”, pois é um defensor do livre comércio, no qual a sociedade ganha comprando coisas baratas (questões de geopolítica não existem). Assim, a situação em que os dois princípios pode se chocar é quando o comerciante ganha dinheiro com algo contrário ao interesse da sociedade, como o de uma casa de jogos de azar ou de um bordel. Comentando a proibição da importação de ópio e as restrições à venda de veneno, Mill diz: “podem-se fazer objeções a essas intervenções não por infringirem a liberdade do produtor ou do vendedor, mas a do comprador.” A obra é de 1859, mas já traz o argumento básico da legalização das drogas, do aborto e de tudo o que for antissocial: trata-se de uma questão de liberdade individual, e é feio meter-se com a vida dos outros.

No mesmo capítulo, Mill também considera que é bom os pobres terem menos filhos para que a classe operária não se multiplique e, assim, a lei da oferta e da procura garanta aos trabalhadores um salário melhor. Posição que concilia liberalismo e malthusianismo, doutrinas que combinam tanto que se amalgamaram no darwinismo social.

Menos de duzentos anos depois, os ingleses que sobraram podem ver o legado da filosofia social de Mill.

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Se não sabemos o que é o homem, como saberíamos o que é uma mulher? https://strategic-culture.su/news/2026/01/19/se-nao-sabemos-o-que-e-o-homem-como-saberiamos-o-que-e-uma-mulher/ Mon, 19 Jan 2026 15:05:53 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890118 Nos dias de hoje, caso perguntemos o que é o homem, simplesmente não há uma definição que se pretenda inequívoca e válida em todos os campos do saber.

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Antes da Revolução Científica, se perguntássemos o que é o homem, a resposta padrão seria “animal racional”. É a resposta aristotélica. Antes da Revolução Científica, a ciência (scientia), sinônimo de conhecimento, era um corpo coeso no qual havia uma resposta para as questões de todas as disciplinas: da formação do arco-íris à natureza dos anjos, passando pelo casamento e os juros.

Nos dias de hoje, caso perguntemos o que é o homem, simplesmente não há uma definição que se pretenda inequívoca e válida em todos os campos do saber. A resposta do biólogo será uma, a do psicólogo, outra, a do antropólogo, uma terceira, e a do filósofo, uma quarta – e nenhuma autoridade científica se preocupará em conciliar todas as respostas com a realidade objetiva.

Embora a ciência moderna tenha surgido com a finalidade de compreender a realidade objetiva, sua subdivisão em infinitas especialidades levou a uma espécie de relativismo prático, já que cada disciplina pode tratar de um mesmo aspecto do objeto, sem verificar com os cientistas de outras disciplinas como eles veem o mesmo objeto. Que os físicos digam que o vidro é líquido e os químicos digam que é sólido, pois a física e a química são, na prática departamental, disciplinas autônomas e autossuficientes.

Quando se trata das humanidades, e sobretudo da filosofia, a situação é ainda mais desordeira. Se perguntarmos numa faculdade de humanidades “o que é o homem?”, a coisa mais próxima de um consenso será que “não existe natureza humana”, o que é a mesma coisa que dizer que o homem não pode ser definido. Essa ideia absurda, que Sartre defendeu em O existencialismo é um humanismo (1946) com uma pretensa refutação da escolástica, é repetida por pós-modernos a torto e a direito como se fosse uma verdade autoevidente, sem nem mesmo citar Sartre. Como esses pós-modernos habitam os departamentos de todas as humanidades, por isso, e só por isso – só por uma contingência política, não por uma questão científica –, tal é a resposta mais próxima do consensual.

Num departamento de filosofia, é de se esperar que alguém saiba dizer que o homem é o animal racional. Não obstante, quem repete Aristóteles e Tomás é o historiador da filosofia, cuja tarefa não é dizer o que é um homem, mas sim registrar e transmitir o histórico das opiniões dos filósofos. Pós-modernos à parte, os departamentos de filosofia têm a oferecer filósofos analíticos (que debatem de maneira diacrônica questões clássicas, em geral ligadas ao mundo das exatas) e filósofos da mente, que debatem ficção científica e fazem de conta que são sérios só porque têm muitos artigos revisados por pares.

Assim, senhoras e senhores, não é de admirar que a nossa era, mesmo tendo enviado o homem ao espaço e desvendado o seu código genético, não saiba diferenciar homem de mulher. Ora, se não há autoridade intelectual capaz de dar uma definição do homem que seja reconhecida por todas as áreas do conhecimento, apenas o bom-senso impedia que pessoas importantes nas instituições científicas e políticas determinassem que mulheres têm pênis.

É fácil seguir o chorume e ver de onde vem esse absurdo: da filosofia de Sartre, segundo a qual não há natureza humana, mas sim uma existência livre que deve fazer o seu próprio projeto sem se prender a nada de natural. Nesse espírito, sua esposa diria que “não se nasce mulher, torna-se”. De maneira velada (pois não se assumia como filosófica), a antropologia cultural fomentou essa desconstrução da natureza humana antes mesmo do existencialismo de Sartre. As mentiras de Margaret Mead sobre a longínqua Samoa Ocidental eram da década de 20; o opúsculo de Sartre, da década de 1940.

A falta de conversa entre as disciplinas é notória, e ao longo do século XX, não faltaram tentativas de resolver o problema por meio de alterações curriculares. Tomou-se por uma simples questão curricular o que era, na verdade, um problema epistemológico grave. Na Idade Média e na Renascença, os sábios não eram mais completos por causa de um currículo, mas por causa da concepção do conhecimento.

Para entendermos bem isto, comparemos três personagens da Renascença: o escolástico, o cientista moderno e o alquimista. O escolástico é aristotélico-tomista, e há uma resposta aristotélico-tomista para tudo. O cientista moderno formou-se na escolástica, mas descobriu que o geocentrismo e a teoria dos cinco elementos estão errados, de modo que o sistema aristotélico-tomista não pode ser todo ele verdadeiro. Qual é a verdade inteira, ele não sabe. Por fim, há o alquimista, que mesmo durante a revolução científica continua usando a teoria dos cinco elementos e geocentrismo implícito da astrologia.

O escolástico e o cientista moderno têm em comum a visão do conhecimento como um todo: se Aristóteles e Tomás de Aquino estavam certos, então não é possível que o elemento terra não esteja no centro do cosmos; Copérnico e Galileu têm que estar errados. Mas se Copérnico e Galileu estão certos, então todo o maravilhoso edifício construído por Tomás de Aquino sobre as bases aristotélicas fica comprometido e tem que ser reexaminado. Já os alquimistas, que iam atrás de Platão, Aristóteles, cabala, astrologia, magia persa, eram uns onívoros incapazes do pensamento sistemático exigido para fundar ou refundar a Ciência.

Diante de uma concepção realmente objetivista do conhecimento, o natural é inventar uma instituição responsável por aumentá-lo e sistematizá-lo dentro de uma hierarquia: a universidade, que estuda o universus. Que estuda tudo, ou o todo, que é o que universus significava antes de virar um sinônimo de cosmos.

Por outro lado, vimos no último texto que Bacon representa o lado feiticeiro da ciência moderna, o lado que bebe dos alquimistas que jamais foram capazes de criar um projeto universalista. Sobre Bacon, vale citarmos mais uma vez Jason Josephson:

“A concepção baconiana do conhecimento se baseava na falibilidade humana, piorada por um universo descrito como um vasto labirinto negro, cheio de becos sem saída, atalhos secretos e desdobramentos intrincados. […] Bacon defendia que, como a mente humana era profundamente defeituosa e o mundo era fundamentalmente enigmático, o máximo por que se poderia esperar era uma forma fragmentária de conhecimento, e mesmo assim, tal só era possível por meio da fé em Deus.” (The Myth of Disenchantment, p. 47) No entanto, a experiência do presente século ensina que conhecimento fragmentário é a mesma coisa que conhecimento nenhum, pois leva ao relativismo no qual cada disciplina tem a sua verdade.

No final das contas, o fato é que a Revolução Científica causou um trauma na Igreja Católica e na Universidade que se sente até hoje: uma vez derrubado um sistema inteiriço, não se colocou nada de inteiriço no lugar. Restam essas ciências que não têm autoridade umas sobre as outras, organizadas em burocracias anárquicas que têm o nome de universidade.

O atual estado de coisas – no qual ninguém tem autoridade para dizer o que é um homem, e se quantos sexos tem – mostra a necessidade de uma instituição responsável por produzir e sistematizar o conhecimento. Uma instituição que já foi inventada antes, na Idade Média, com o nome de Universidade.

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If we don’t know what a man is, how would we know what a woman is? https://strategic-culture.su/news/2026/01/18/if-we-dont-know-what-a-man-is-how-would-we-know-what-a-woman-is/ Sun, 18 Jan 2026 11:00:46 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890094 The current state of affairs – in which no one has the authority to say what a man is, and how many sexes the species has – shows the need for an institution responsible for producing and systematizing knowledge.

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Before the Scientific Revolution, if we asked what a man is, the standard answer would be “rational animal.” That’s the Aristotelian answer. Before the Scientific Revolution, science (scientia), synonymous with knowledge, was a cohesive body in which there was an answer to questions from all disciplines: from the formation of the rainbow to the nature of angels, including marriage and interest rates.

Nowadays, if we ask what a man is, there simply isn’t a definition that claims to be unequivocal and valid in all fields of knowledge. The biologist’s answer will be one, the psychologist’s another, the anthropologist’s a third, and the philosopher’s a fourth – and no scientific authority will bother to reconcile all the answers with objective reality. Although modern science emerged with the purpose of understanding objective reality, its subdivision into countless specialties has led to a kind of practical relativism, since each discipline can deal with the same aspect of the object, without verifying with scientists from other disciplines how they see the same object. Let physicists say that glass is a liquid and chemists say that glass is a solid, because physics and chemistry are, in departmental practice, autonomous and self-sufficient disciplines.

When it comes to the humanities, and especially philosophy, the situation is even more chaotic. If we ask in a humanities faculty “what is man?”, the closest thing to a consensus will be that “there is no human nature”, which is the same as saying that man cannot be defined. This absurd idea, which Sartre defended in Existentialism Is a Humanism (1946) with a purported refutation of scholasticism, is repeated by postmodernists at every corner as if it were a self-evident truth, without even citing Sartre. Since these postmodernists inhabit the departments of all the humanities, for this reason, and only for this reason – only due to a political contingency, not a scientific matter – this is the closest thing to a consensual answer.

In a philosophy department, one would expect someone to know how to say that man is a rational animal. However, the one who repeats Aristotle and Thomas is the historian of philosophy, whose task is not to say what a man is, but rather to record and transmit the history of the philosophers’ opinions. Postmodernists aside, philosophy departments can offer analytical philosophers (who debate classical questions diachronically, generally linked to the world of exact sciences) and philosophers of mind, who debate science fiction and pretend to be serious just because they have many peer-reviewed articles.

So, ladies and gentlemen, it is no wonder that our era, even having sent man into space and deciphered his genetic code, does not know how to differentiate between men and women. Now, if there is no intellectual authority capable of giving a definition of man that is recognized by all areas of knowledge, only common sense prevented important people in scientific and political institutions from determining that women have penises.

It is easy to follow the drivel and see where this absurdity comes from: from Sartre’s philosophy, according to which there is no human nature, but rather a free existence that must make its own project without being bound to anything natural. In this spirit, his wife would say that “one is not born a woman, one becomes one”. In a veiled way (since it did not present itself as philosophical), cultural anthropology fostered this deconstruction of human nature even before Sartre’s existentialism. Margaret Mead’s lies about distant Western Samoa were from the 1920s; Sartre’s pamphlet, from the 1940s.

The lack of dialogue between disciplines is notorious, and throughout the 20th century, there was no shortage of attempts to solve the problem through curricular changes. What was, in fact, a serious epistemological problem, was mistaken for a simple curricular issue. In the Middle Ages and the Renaissance, wise men were not more complete because of a curriculum, but because of their conception of knowledge.

To understand this well, let’s compare three Renaissance figures: the scholastic, the modern scientist, and the alchemist. The scholastic is Aristotelian-Thomistic, and there is an Aristotelian-Thomistic answer for everything. The modern scientist was trained in scholasticism, but discovered that geocentrism and the theory of the five elements are wrong, so the Aristotelian-Thomistic system cannot be entirely true. What the whole truth is, he does not know. Finally, there is the alchemist, who even during the scientific revolution continues to use the theory of the five elements and the implicit geocentrism of astrology.

The scholastic and the modern scientist share a vision of knowledge as a whole: if Aristotle and Thomas Aquinas were right, then it is impossible that the element earth is not at the center of the cosmos; Copernicus and Galileo must be wrong. But if Copernicus and Galileo are right, then the entire marvelous edifice built by Thomas Aquinas on Aristotelian foundations is compromised and must be re-examined. As for the alchemists, who pursued Plato, Aristotle, Kabbalah, astrology, and Persian magic, they were omnivores incapable of the systematic thinking required to found or refound Science.

Faced with a truly objectivist conception of knowledge, the natural thing is to invent an institution responsible for increasing and systematizing it within a hierarchy: the university, which studies the universus. It studies everything, or the whole, for this was the meaning of universus before becoming a synonym for cosmos.

On the other hand, we saw in the previous article that Bacon represents the sorcerer’s side of modern science, the side that draws from the alchemists who were never able to create a universalist project. Regarding Bacon, it is worth quoting Jason Josephson once again:

“Bacon’s conception of knowledge was predicated on human fallibility, made worse by a universe he described as a vast dark labyrinth, full of blind alleys, hidden passages, and intricate convolutions. […] Bacon argued that because the human mind was profoundly defective and the world fundamentally enigmatic, the best a person could hope for was a fragmentary form of knowledge, and even then, this was only possible by means of faith in God.” (The Myth of Disenchantment, p. 47) However, the experience of the present century teaches that fragmentary knowledge is the same as no knowledge at all, because it leads to relativism in which each discipline has its own truth.

Ultimately, the fact is that the Scientific Revolution caused a trauma both in the Catholic Church and the University that is still felt today: once a whole system was overthrown, nothing whole was put in its place. What remains are these sciences that have no authority over each other, organized into anarchic bureaucracies that go by the name of university.

The current state of affairs – in which no one has the authority to say what a man is, and how many sexes the species has – shows the need for an institution responsible for producing and systematizing knowledge. An institution that was invented before, in the Middle Ages, with the name of University.

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O lado feiticeiro da ciência moderna https://strategic-culture.su/news/2026/01/13/o-lado-feiticeiro-da-ciencia-moderna/ Tue, 13 Jan 2026 17:31:16 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890009 A tecnologia agora se deslumbra com o delírio de recriar a inteligência humana, e que essa fantasia já tinha um precedente mitológico no golem.

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No último texto, tangenciamos o fato de que a cabala era estudada por homens que deram contribuições importantíssimas à ciência moderna, surgida no mundo católico. Vimos também que esses homens não eram judeus; assim, uma influência da cabala sobre a ciência não é a mesma coisa que a influência de cientistas judeus sobre a ciência. Na verdade, ao contrário do que professa o atual revisionismo empreendido pelos fetichistas do QI, a participação dos judeus na ciência moderna era insignificante até a emancipação, e isso se devia ao peculiar obscurantismo do judaísmo medieval.

Curiosamente, na Renascença e no início da modernidade os homens de ciência se tornaram supersticiosos, renovando, por exemplo, o interesse pela astrologia (disciplina desmentida desde os tempos de Cícero). Numa época de enriquecimento das cidades e de maior produção de livros, não faltou ocasião para que se manifestasse o humano interesse por aquilo que se apresenta como oculto, velado e secretíssimo. Se a alquimia mirava a pedra filosofal e o elixir da juventude, capazes de deixar qualquer um rico e jovem para sempre, a cabala prometia algo próximo disso, e que talvez fosse um requisito para a alquimia: o domínio dos segredos da Criação.

Em A Cabala e seu simbolismo, Gershom Scholem faz uma exposição sobre o golem (criatura lendária judaica) na qual consta um mito muito próximo da atual concepção de ciência, e faz, portanto, cogitar que a ciência de hoje seja influenciada por uma visão cabalística da natureza.

Vamos primeiro ao que é um golem: um boneco de barro vivo, feito por um sábio judeu que emula a criação de Adão por Deus. No referido livro, aprendemos que para o judeu o homem tem muito mais poder de criar do que para um cristão. Por exemplo, ao derramar o esperma fora do corpo feminino, o homem torna-se pai de demônios, de criaturas espectrais que buscam um corpo (donde só se pode concluir que o rabino do Pornhub quer encher o mundo de demônios…). Assim, no enterro de um homem, é preciso evitar que os legítimos herdeiros compareçam antes da purificação do corpo, já que os seus irmãos espectrais, bastardos, querem prejudicá-los. Daí se vê que a ideia de o homem criar vida de forma mágica não era estranha à mente cabalista.

“Cabala” vem do hebraico e significa “tradição”. Em vez se de apegar à letra do Velho Testamento e das interpretações talmúdicas, o cabalista pretende ter acesso a uma tradição mística, mais velha que o próprio judaísmo, e usa esse conhecimento mágico para se relacionar com a Torá. Pode, por exemplo, dizer que a Torá é um conjunto de letras que a ser lido das mais variadas formas; que a Torá é, toda ela, um grande nome de Deus por extenso; que na Nova Era o branco da Torá (do papel) será legível e a Lei mudará, porque hoje só se lê o preto (das letras). Em suma, um monte de maluquice. Imagine dizer que “Não pise na grama” é um nome, ou que equivale a “Pão gise an nrama”. Fica difícil mandar alguém não pisar na grama.

De todo modo, o caráter divino da Torá não é negado – muito pelo contrário. Ter o conhecimento da Torá significa ter o conhecimento divino e, assim, adquirir poderes mágicos. Por isso, dominando a Torá, um homem muito justo poderia fazer um ritual maluco (talvez incluísse encher a casa de terra e dançar em círculos) para criar um golem: um humanoide feito de barro, capaz de seguir instruções e agir como um servo. Embora haja precedentes no Zohar (sefardita) e até numa anedota do Talmude da Babilônia (quando os rabinos fabricam um bezerro e comem-nos depois de estudar um tal Livro da Criação), o golem, com esse nome, é uma invenção dos asquenazitas.

Nas versões mais comuns do mito, o golem tem escrito em sua fronte emet, “verdade”. Quando se apaga uma letra, sobra met, que significa “morto”, e o golem se desfaz em terra inanimada. É recomendável matar o golem, porque ele vai crescendo indefinidamente e se torna perigoso para o seu criador.

No entanto, Scholem encontrou uma versão, digamos, nietzschiana do mito do golem datada do começo do século XIII, no Languedoc:

“O profeta Jeremias ocupou-se sozinho do Sefer Ietzirá [Livro da Criação]. Uma voz celestial ressoou então, dizendo: Toma um companheiro. Chamou ele seu filho Sira, e juntos estudaram o livro por três anos. Depois puseram-se a combinar os alfabetos, segundos os princípios cabalísticos de combinação, agrupamento e formação de palavras, e um homem lhe foi criado, em cuja testa estavam as letras YHWH Elohim Emet [“Deus é verdade”]. Mas este homem recém criado tinha uma faca na mão, e com ela raspou a letra alef da palavra emet: restou apenas met. Então Jeremias rasgou as vestes (por causa da blasfêmia: Deus está morto, sugerida agora pela inscrição mutilada) e disse: Por que apagaste o alef de emet? Respondeu ele: Vou te contar uma parábola. Um arquiteto construíra muitas casas, cidades e praças, e ninguém foi capaz de imitar sua arte e competir com seu conhecimento e habilidade, até que dois homens persuadiram-no. Aí ele ensinou-lhes o segredo de sua arte, e eles aprenderam a fazer tudo de maneira certa. Depois que aprenderam o seu segredo e sua habilidade, começaram a aborrecê-lo com palavras. Finalmente romperam com ele e tornaram-se arquitetos como ele, exceto que cobravam a metade do que ele cobrava. Ao se aperceberem disso, as pessoas deixaram de honrar o artista para procurar os outros, confiando a estes suas encomendas quando queriam alguma construção. Portanto, Deus te fez à Sua imagem e à Sua semelhança e forma. Mas agora, que criaste um homem, como Ele, as pessoas dirão: Não existe Deus no mundo, exceto esses dois! E Jeremias respondeu: Que solução há? Ele falou: Escreva os alfabetos de trás pra frente, sobre a terra que esparramaste com concentração intensa. Porém não medite no sentido da construção para cima, mas pelo contrário. Assim fizeram, e o homem se transformou em pó e cinzas diante dos olhos deles. Aí Jeremias disse: Na verdade, dever-se-ia estudar estas coisas só com o propósito de conhecer o poderio e a onipotência de Deus, mas não com o propósito de realmente praticá-las.”

Propaganda é a alma do negócio. Apesar das recomendações contra o uso, o fato é que os mestres cabalistas alegavam possuir poderes mágicos similares aos do próprio Deus. A ideia era que decifrar a Criação por meio de estudos religiosos dava tais poderes. A mera crença de que fulano ou beltrano desvendou os domínios da criação serve para exercer poder sobre todos os homens crédulos, sejam eles judeus ou não. Daí a possibilidade de a influência da cabala se infiltrar na ciência mesmo quando os judeus não participavam dela.

A cabala se torna tanto mais sedutora quanto mais se acostuma o senso comum a acreditar que “eles” estão mentindo para você, e que a Verdade foi oculta num determinado período da História. Noutras palavras, essa verdade se tornava mais sedutora em ambientes protestantes do começo da modernidade, em que a propaganda anticatólica afirmava que tudo aquilo em que seus pais e avós acreditavam era mentira, pois desde os tempos do Império Romano a cristandade era enganada por uma quadrilha eclesiástica fundada pelo Diabo. O ambiente era tanto mais propício, porque ao prometer que a pureza está em tempos mais antigos, coloca os judeus como habitantes privilegiados desse mundo incorrupto.

O protestantismo visa a rebobinar a história do cristianismo para um ponto anterior à corrupção católica. Uma vez que se comece a rebobinar, nada impede de chegar ao judaísmo e, por conseguinte, à cabala. Esta era cheia dos pseudoepigráficos, isto é, dos livros com autoria falsamente atribuída a um terceiro. Por exemplo,  se o Talmude da Babilônia aludia a um Livro da Criação capaz de fazer os rabinos produzirem um bezerro, em 1562, Mântua, alguém achou uma boa ideia imprimir um volume em hebraico intitulado Livro da Criação e atribuir sua autoria a Abraão, o patriarca veterotestamentário. Ou seja, na Renascença os judeus e os ocultistas liam um manual de magia feito na Itália contemporânea e acreditavam que era uma obra secreta de Abraão.

Sobre a relação entre o golem e a ciência moderna, Scholem recolhe variadas versões do golem para apontar que, numa delas, há uma antecipação mais exata do homúnculo de Paracelso, pois o golem é criado a partir da argila dentro uma retorta. E assim ficamos sabendo que o Pai da Toxicologia acreditava ser capaz de produzir um homúnculo colocando esperma humano junto com o útero podre de uma égua e outras coisas nojentas dentro de uma retorta.

O que salta aos olhos na versão acima reproduzida da história do golem é a sua modernidade, ou até pós-modernidade. Nela, o homem é capaz de “matar Deus” (de torná-lo insignificante) por meio do conhecimento dos segredos da Criação – ou, modernamente, por meio do conhecimento da natureza. A função da ciência passa a ser pragmática: desvendar os segredos da natureza para manipulá-la tal como se fosse o seu autor. Na formulação de Francis Bacon, torturar a natureza para arrancar-lhe os segredos, porque conhecimento é poder. O conhecimento é instrumental, pois a teoria está subordinada à técnica.

Se as ideias baconianas de torturar a natureza e de que conhecimento é poder são notórias, o mesmo não se pode dizer da sua ideia de que a ciência é mágica. A este respeito, vale citar o estudioso de religiões Jason Josephson:

“Bacon descrevia seu famoso método experimental […] explicitamente em termos de mágica. Como disse em De Dignitate et Augmentis Scientiarum (1623): ‘A mágica pretende recuperar a filosofia natural de uma miscelânea especulativa e trazê-la para a grandeza de obras’, o que era exatamente o que ele tentava fazer com seu próprio projeto. Bacon também definiu a mágica ‘como a ciência que aplica o conhecimento às formas ocultas da produção de operações maravilhosas; e por meio da união (como se diz) dos ativos com os passivos, exibe as maravilhosas obras da natureza.’ A mágica era uma forma pragmática, ou instrumentalista, da filosofia natural, exatamente do tipo que Bacon via como faltante na escolástica. Bacon […] também queria aprimorar a mágica. Como argumentou em De augmentis, ‘devo estipular que a mágica, que foi usada por muito tempo com um mau sentido, seja mais uma vez restaurada para o seu significado antigo e honorável. Pois entre os persas a mágica era tomada como uma sabedoria sublime, o conhecimento da harmonia universal das coisas.’” (The Myth of Disenchantment, p. 46).

Ou seja, uma vez que se comece a rebobinar a história, não há nenhuma necessidade de parar, e todo livro que se suponha mais antigo do que a Igreja Romana é um potencial portador de segredos que “eles” não querem que você saiba. Essa é a mentalidade do surto de ocultismo da época da Reforma.

Por fim, outra coisa que chama a atenção nessa visão da ciência é a possibilidade de o homem se colocar como um outro perante a natureza. De fato, Deus é literalmente sobrenatural (o autor da natureza está acima dela). O homem, porém, ao se ver como êmulo de Deus, acaba por se colocar como uma espécie de manipulador sobrenatural da natureza, como se estivesse fora do escopo dos estudos científicos (excetuando-se o lado fisiológico). A natureza humana, que tanto ocupou a filosofia clássica, toma um chá de sumiço com o advento da ciência moderna, que tanto privilegia a técnica e o domínio da natureza.

A coisa é tanto mais estranha, quanto mais pensamos que a tecnologia agora se deslumbra com o delírio de recriar a inteligência humana (IA), e que essa fantasia já tinha um precedente mitológico no golem.

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Da anti-ciência mística à anti-ciência ateia https://strategic-culture.su/news/2025/12/22/da-anti-ciencia-mistica-a-anti-ciencia-ateia/ Sun, 21 Dec 2025 21:42:21 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=889588 A diferença entre um homem comum e um cientista deveria ser justamente o conhecimento das causas.

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Passadas as turbulências políticas brasileiras, voltemos então ao assunto da ciência moderna, que surgiu no Ocidente católico e se desenvolveu, no começo, entre cientistas católicos e protestantes. Como vimos, o Ocidente é racionalista há mais tempo do que é cristão, e, quando convidado a escolher entre racionalismo ateu e irracionalismo cristão, fica com a primeira opção. Ainda antes da invenção da ciência moderna, os árabes pularam muito rápido da condição tribal para a de civilização sofisticada. O mundo islâmico dominou a filosofia greco-romana e fez avanços formidáveis, como a invenção da álgebra. No entanto, os muçulmanos em sua maioria (sunita) pensaram de maneira diferente da ocidental; e, diante de teorias que poderiam contradizer o Corão, preferiram sacrificar a especulação filosófica e nunca mais se recuperaram.

Para refletir sobre o assunto, usei a História da Idade Média, de Georges Minois. A partir daí, podemos observar também que a narrativa que opõe o obscurantismo religioso à ciência ateia tem mais plausibilidade na história da Rússia do que na história da França, pois enquanto a Revolução Francesa guilhotinou Lavoisier, os comunistas de fato pegaram uma Rússia agrária e, em menos de um século, colocaram-na na corrida espacial. A crermos em Minois, isso tem a ver com a tutela dos monges ortodoxos sobre a vida pública bizantina.

De fato, o ramo bizantino da cristandade parece ter privilegiado a filologia sobre a filosofia, o que levou a um congelamento no tempo: enquanto o ramo romano da cristandade arrisca fazer teoria social (vide a Rerum novarum e seus desdobramentos) para tentar conduzir a humanidade em meio às mudanças sociais, o ramo bizantino permanece fixado no passado. O próprio fato de a Rússia ter se tornado uma potência científica não foi acompanhado, até onde eu saiba, de nenhum equivalente ortodoxo do Pe. Georges Lemaitre ou do frade Gregor Mendel. Por outro lado, o russo de maior importância para a ciência é Mendeleiev, que, tendo morrido antes da Revolução Russa, tinha tudo para ser um perfeito ortodoxo, e não obstante era deísta.

Assim, olhando para o histórico das relações entre ciência e religião, constata-se que a teologia importa mais para o desenvolvimento da ciência do que os fatores como etnia ou clima (nos quais a ciência do século XIX preferiu insistir). Por conseguinte, é de nos perguntarmos se numa era ateia militante ainda é possível termos uma boa ciência.

A mim me parece que não, já que a ciência decadente de hoje tem tudo a ver com uma cosmovisão que substituiu causalidade por estatística. Em primeiro lugar, notemos que nos dias de hoje a curiosidade científica se deslocou da natureza para a técnica. É como se a certeza do Fim da História se aplicasse também à ciência. Tudo se passa como se o universo (humanidade inclusa) fosse plenamente conhecido e explicado, de modo que a única questão pertinente é de natureza operacional, a saber: como pegar todo o conhecimento e criar um supercomputador onisciente capaz de pensar para nós? A IA é uma panaceia; o transumanismo, uma superstição de ricaços que, só por serem ricaços, se acham muito inteligentes.

A visão triunfante nos dias de hoje é muito assemelhada à do ocasionalismo, a teoria inventada pelo místico sufi Algazali segundo a qual não existem causas naturais, mas somente causas sobrenaturais. O principal ocasionalista do Ocidente foi Nicolas Malebranche (1638 – 1715), um padre francês influenciado pelo jansenismo que queria varrer da Igreja a influência aristotélico-tomista e substituí-la por uma idiossincrática combinação de Santo Agostinho com Descartes (que o fazia brigar com os jansenistas, que tinham uma combinação diferente de Santo Agostinho com Descartes). No fim das contas, todo o mundo foi parar no Index.

Como Descartes tem uma dificuldade notória em explicar a interação entre corpo e mente (res extensa e res cogitans), Malebranche resolveu o problema de um jeito radical: corpo e mente de fato não têm nenhum impacto um sobre o outro, e todas as causas que testemunhamos na natureza (e não só a interação mente e corpo) não são mais que a expressão da uniformidade da vontade divina. O fogo não queima todos os dias por causa de alguma característica intrínseca, mas somente porque Deus tem a vontade geral de associar a queimadura ao fogo (se o fogo um dia não queimar, será por um milagre, uma vontade particular de Deus). Não precisamos de uma improvisada glândula pineal cartesiana para explicar como o espírito do assassino consegue mexer o braço que segura a faca: quem faz com que as nossas volições coincidam com as ações é Deus, por meio de sua vontade geral.

Se o uso de Santo Agostinho contra o aristotelismo era uma marca do calvinismo, não é de admirar, portanto, que a filosofia de Malebranche tenha transposto o canal da Mancha e subido para a terra de John Knox, onde o cético escocês David Hume tirou Deus (e Descartes) da equação e criou sua famosa teoria segundo a qual a causalidade não está na natureza, pois é uma projeção humana. Por causa do Hábito, um princípio da natureza humana, o homem não precisa ver o fogo queimar mil vezes, nem ver o sol nascer mil vezes, para inferir que o fogo queima e que o sol nasce todo dia. Assim, em vez de filosofar com cinco elementos e quatro causas (como os aristotélico-tomistas) deveríamos filosofar somente com base na conjunção constante de fenômenos observáveis. O fogo queima porque o fogo queima, isto é, porque o fenômeno da queimadura tem uma conjunção constante com o do fogo. Investigar a natureza é descobrir relações causais, as quais, no fundo, nada mais são do que estatística.

Ora, nos dias de hoje, ciência não é muito diferente de manipulação estatística. A estrutura de um paper é selecionar uma amostragem, fazer experimentos, produzir estatística e alegar causalidade conforme o interesse do patrocinador. Se uma dada quantidade de cobaias tomou uma vacina de covid e contraiu menos covid do que as cobaias que não tomaram a vacina, então a vacina causa um aumento na proteção contra a covid (ainda que, antes de 2020, vacinar-se significasse não uma redução nas chances de adoecer, mas sim a certeza de não adoecer). Quando, depois da vacinação em massa, a população geral passou a ter um monte de infarto, morte súbita e câncer, não se podia culpar a vacina, porque “correlação não implica causa”. Para piorar, não podemos comparar nem os dados das populações que não se submeteram às vacinas ocidentais (como a Venezuela, Cuba, a Rússia e a China), porque seus governos são “autoritários” e portanto seus dados não são “confiáveis”.

Ora, na concepção estatística ou ocasionalista laica da ciência, correlação é a mesma coisa que causalidade. O que esses sacerdotes laicos que atendem pelo nome de divulgadores científicos querem fazer é monopolizar a diferenciação de coincidências e causas – junto com a própria base empírica disponível, já que só valem os dados de países liberais. David Hume sabia que o homem não precisa de um paper revisado por pares para entender que o fogo queima, mas os divulgadores de ciência acham que a população leiga precisa de papers e revisões por pares para fazer inferências causais. Querer que um ser humano tome uma vacina de covid, passe mal e não ligue uma coisa à outra é como querer que a criança enfie o dedo na tomada, tome um choque e não aprenda nada. É antinatural.

A diferença entre um homem comum e um cientista deveria ser justamente o conhecimento das causas. Em vez de tabelas recheadas de dados selecionados, o cientista deveria ter na ponta da língua uma teoria que explicasse as causas. Em vez de uma resposta ocasionalista, como “a onda de infartos e mal súbito se seguiu à covid, portanto, se deve à covid”, a resposta deveria ser “a covid funciona assim-assado, a vacina funciona assim-assado, então a onda de infartos e mal súbito se deve a isso e não àquilo”. Quanto à atual onda de cânceres em jovens (que ninguém teve coragem ainda de atribuir à covid), as matérias jornalísticas que falam em estilo de vida só têm a capacidade de convencer o público cativo, já que, até prova em contrário, não temos por que crer os jovens só passaram a comer mal após a vacinação de covid. Trata-se, como se vê, de um monopólio tirânico do raciocínio causal, que é natural ao homem. Na atual ciência, só um establishment pode determinar qual correlação é causalidade e qual não é, e o povo precisa pedir a bênção da revisão por pares antes de juntar lé com cré.

O ocasionalismo laico também é o pai da “ciência” baseada em modelos matemáticos; afinal, os modelos são baseados em números e isso dispensa todo raciocínio crítico. Se os dados indicam que a proporção de evangélicos cresce a x% por no Brasil, então dentro de y anos o Brasil se tornará um país de maioria evangélica. Seguindo o raciocínio, um dia o Brasil chegará a 100% de evangélicos, e tanto eu quanto os youtubers fãs de Dawkins compraremos a toalhinha com o sebo do Pastor Valdemiro. Parece bobagem e é. Não obstante, durante a pandemia o youtuber Átila Iamarino arranjou um modelo matemático do Imperial College e previu três milhões de mortos de covid “caso nada fosse feito”. Em vez de admitir que usar modelo acriticamente é estupidez, preferiu-se dizer que alguma coisa foi feita, ao mesmo tempo que se acusava Bolsonaro de genocídio por não ter feito nada. É o típico raciocínio que não passa no teste da falseabilidade de Popper, que os divulgadores científicos agora só citam para “socar nazistas”.

Assim, dois problemas saltam à vista na ciência tal como é feita hoje: o espírito triunfal do Fim da História, que faz com que não se pesquise mais a natureza e, em vez disso, se busque apenas inovar em tecnologia; e esse ocasionalismo laico, que desiste de buscar causas, e fica só manipulando estatística.

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