Serbia – Strategic Culture Foundation https://strategic-culture.su Strategic Culture Foundation provides a platform for exclusive analysis, research and policy comment on Eurasian and global affairs. We are covering political, economic, social and security issues worldwide. Mon, 23 Feb 2026 19:59:15 +0000 en-US hourly 1 https://strategic-culture.su/wp-content/uploads/2023/12/cropped-favicon4-32x32.png Serbia – Strategic Culture Foundation https://strategic-culture.su 32 32 Eurasia’s great divide: Mapping support for Russia and Ukraine https://strategic-culture.su/news/2026/02/23/eurasias-great-divide-mapping-support-for-russia-and-ukraine/ Mon, 23 Feb 2026 19:58:33 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=890760 Nearly four years into the conflict in Ukraine, public opinion across Eurasia reveals a continent sharply divided along historical and geopolitical fault lines. This infographic, based on Gallup data, maps which countries lean toward Moscow and which toward Kiev.

Join us on TelegramTwitter, and VK.

Contact us: info@strategic-culture.su

(Click on the image to enlarge)


]]>
Projected population in 2100: Southern Europe https://strategic-culture.su/news/2026/01/06/projected-population-in-2100-southern-europe/ Tue, 06 Jan 2026 15:30:23 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=889881

From the Mediterranean coast to the Balkans, Southern Europe faces a uniform demographic retreat. This infographic illustrates how even countries with historically higher birth rates, including Muslim-majority nations like Turkey and Albania, are projected to see their populations peak and then fall significantly by 2100. The region’s combination of economic stagnation, youth emigration, and rapidly falling fertility rates points toward a future of profound societal aging and diminished influence, transcending cultural and religious lines.

Join us on TelegramTwitter, and VK.

Contact us: info@strategic-culture.su

(Click on the image to enlarge)

]]>
A diferença abismal entre a BBC «imparcial» e a RT «propagandista» https://strategic-culture.su/news/2025/12/21/a-diferenca-abismal-entre-a-bbc-imparcial-e-a-rt-propagandista/ Sun, 21 Dec 2025 18:05:06 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=889566 A questão é: qual propaganda está do lado certo da história

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Os propagandistas do imperialismo tentaram, certa vez, refutar Margarita Simonyan quando ela respondeu a um repórter ocidental, que questionou o jornalismo da RT. Ela afirmou que não havia diferença entre o financiamento da RT pelo governo russo e o financiamento da BBC pelo governo britânico.

“Que absurdo! É óbvio que a BBC recebe fundos públicos para dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, enquanto Putin paga os funcionários da RT para espalharem mentiras e propaganda pró-Kremlin!”, latiram.

A BBC tem um longo histórico de cobertura para atividades de espionagem e propaganda dos interesses do imperialismo britânico. Na verdade, ela foi criada para isso. Mas como, no mundo fantástico inventado pela própria BBC e suas sucursais, o Reino Unido é uma democracia, a imprensa seria absolutamente independente em sua linha editorial e estaria integralmente preocupada com difundir informação séria e imparcial. Já a Rússia, ah, ela não passa de uma autocracia bárbara e toda a sociedade estaria subordinada aos interesses do czar Vladimir Putin. Logo, a RT seria um veículo de pura propaganda a serviço do imperialismo russo, ao contrário da BBC.

No artigo anterior, vimos um exemplo de manipulação de uma das mais atrozes guerras das últimas décadas, justamente por parte da neutra, imparcial e informativa BBC. Agora veremos a abordagem da RT sobre o mesmo tema, também analisando um documentário. Como a RT foi criada apenas em 2005, ela não poderia ter realizado uma cobertura das guerras na Iugoslávia. Mas o filme em questão recupera as histórias daquela guerra.

Produzido em 2010, Sérvia ferida é um documentário televisivo, assim como A morte da Iugoslávia. Mas sua angulação é diferente: a partir de depoimentos de testemunhas oculares, o documentário procura contar histórias de vida e não explicar detalhadamente a história oficial da guerra.

Abordando os bombardeios da OTAN na Iugoslávia em 1999 a partir do ponto de vista da população sérvia, a película resgata o sofrimento daquele povo e não tem a intenção de parecer imparcial, ao “ouvir os dois lados”. Seu discurso é claro e, nesse sentido, transparente: vai contar um lado da história, o lado que não é lembrado pela história oficial da guerra de 1999, o lado das vítimas sérvias.

Além disso, devem também ser ressaltadas as motivações políticas de Sérvia ferida. Como um documentário produzido e veiculado pela RT, os pontos de vista transmitidos acabam por representar as aspirações e pensamentos russos, como um contraponto ao sistema propagandístico do imperialismo, como a BBC, cuja programação atende às necessidades das nações imperialistas.

A narrativa, ao recordar as atrocidades cometidas pelas forças da OTAN na Iugoslávia em 1999, é uma advertência sobre possíveis novas ações como aquela, desta vez contra a própria Rússia. Isso porque a Aliança Atlântica, após o término da Guerra Fria e a incorporação de países do Leste Europeu, começou a instalar bases e realizar exercícios militares próximos às fronteiras com a Rússia e as tensões com as potências ocidentais, especialmente os EUA, são frequentes.

Ao contrário do documentário da BBC, Sérvia ferida não mostra o conflito armado como resultado de ódios étnicos mantidos por culturas atrasadas e sim por condições concretas que pioraram a qualidade de vida das pessoas, o que desencadeou uma crise política em que grupos radicais se aproveitaram para espalhar seus preconceitos e outros, interessados em recursos financeiros que viriam com o domínio de territórios, conseguiram levar adiante seus projetos políticos.

O político sérvio Zoran Andjelkovic declara ao documentário que os EUA não estavam contentes com a Iugoslávia unida e soberana e que para eles é mais conveniente controlar países pequenos. Essa é a mais pura verdade, que a BBC jamais admitiu durante aquelas guerras.

Então passa-se a abordar o conflito no Kosovo, em que é relatado o surgimento do Exército de Libertação do Kosovo e são mostradas imagens de seus milicianos armados marchando, enquanto a voice over descreve que eles atacavam civis da minoria sérvia e a polícia e as imagens mostram vítimas sérvias e carros destruídos. Neste momento, a voice over diz que as autoridades de Belgrado decidiram “cumprir a ordem constitucional” de intervir militarmente no Kosovo. No início dessa sequência, o narrador afirma que “forças estrangeiras ajudaram a equipar o Exército de Libertação do Kosovo” mas não apresenta provas nem indícios e não procura se aprofundar no assunto – embora as afirmações possam perfeitamente ser embasadas em documentação disponível na Internet.

Após essa sequência, o documentário começa a abordar a intervenção da OTAN, como narra a voice over: “Ao ver que a situação não mudaria, a OTAN decidiu intervir no caso.” Ao longo da narrativa, não são feitas entrevistas com representantes da Aliança, somente são mostradas partes de discursos da época. Um militar iugoslavo retirado descreve algumas das operações e “conquistas” do exército iugoslavo na defesa do país. Um político também dá seu depoimento sobre suas atividades contra os bombardeios, apesar de ser opositor do então governo de Milosevic.

Os hipócritas que trabalham nos grandes jornais ocidentais dirão: onde está a imparcialidade? Por que o documentário não ouviu “o outro lado”? Ora, já estamos fartos de toda a bajulação da OTAN pelos filmes e documentários internacionais. Já estamos fartos de ouvir o lado dos opressores. O que falta é saber a versão dos oprimidos. E a RT sempre se propôs a isso – é exatamente por isso que incomoda tanto os jornalistas “imparciais” do ocidente.

Durante o documentário, uma série de imagens retrata o poderio militar da OTAN e também as destruições nas cidades e povoados. Apresenta o número de mortos e feridos em vários ataques. Os entrevistados relatam seu sofrimento, principalmente psicológico, porque podiam ouvir o barulho dos mísseis passando poucos metros de suas casas e a qualquer momento poderiam ser atingidos. Uma das entrevistadas, Marina Jovanovic, tem a história mais triste: aos 15 anos, deixou Belgrado para fugir dos bombardeios e se refugiou no interior da Iugoslávia. Quando ia a uma igreja com seus amigos, aviões da OTAN dispararam mísseis contra eles. Ela ficou gravemente ferida e uma de suas melhores amigas morreu, junto a quase duas dezenas de pessoas. Quando ela lembra da amiga, seus olhos ficam marejados e a câmera dá um close em seu rosto e também faz um plano detalhe de seus olhos. Na época da guerra, Marina queria ser jornalista, mas depois decidiu ser médica.

Feridos, mortos, explosões, deslocamento de refugiados e pessoas chorando são algumas das imagens mostradas enquanto o documentário relata as consequências dos seguidos bombardeios contra os civis. É denunciado o uso de armas químicas por parte da OTAN, como bombas de fragmentação e urânio empobrecido. Um ex-correspondente da TV sérvia apresenta indícios em vídeo desses crimes. Imagens e depoimentos são mostrados, inclusive o de um médico que, anos depois, ainda estava cuidando das vítimas da OTAN no Kosovo. Os depoimentos finais de três entrevistados são apresentados com imagens em preto e branco, ao falarem quais foram as consequências “cinzentas” dos bombardeios.

São mostradas e relatadas as consequências dos bombardeios destrutivos sobre edifícios civis ainda com as marcas da guerra. Imagens de arquivo dos bombardeios e da destruição são mostradas enquanto a voice over questiona: “O que essas pessoas pagaram com suas vidas e sua saúde? A OTAN realmente conseguiu realizar seus objetivos (deter a campanha de terror contra os civis no Kosovo, prevenir outras catástrofes e acabar com a instabilidade na região)?” No final do documentário, a voice over questiona, após os eventos terem sido mostrados ao longo do filme: “O tempo passou. Alguém poderia se perguntar se a OTAN conseguiu seus principais objetivos. Por acaso não é uma catástrofe de índole humana o destino de dezenas de milhares de sérvios do Kosovo? O Kosovo parou de ser um foco de tensão da instabilidade? Por acaso acabou o terror contra a população civil nessa região?” Enquanto isso, são mostradas imagens de soldados da OTAN, manifestantes sérvios e uma idosa desesperada. “No entanto, há um objetivo alcançado: a unida, forte e independente Iugoslávia deixou de existir”, completa o narrador.

A RT assume claramente um lado. A BBC esconde o seu lado. Quem é mais honesta? E qual lado é o correto? O imperialismo destruidor de vidas e de nações frágeis, o qual a BBC representa passando-se por “imparcial”? Ou o lado das vítimas das guerras imperialistas, das vidas perdidas pelos massacres da OTAN, dos que sempre sofreram, por séculos, com a expansão militar do imperialismo?

A RT pode até mesmo ser um órgão de propaganda. Mas quem não espalha propaganda? A questão é: qual propaganda está do lado certo da história? A da BBC é que não está. Essa é a verdadeira diferença entre RT e BBC.

]]>
Como a BBC manipulou a história das guerras na Iugoslávia https://strategic-culture.su/news/2025/12/17/como-a-bbc-manipulou-a-historia-das-guerras-na-iugoslavia/ Wed, 17 Dec 2025 14:05:49 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=889480 Em razão dos 30 anos da assinatura do Acordo de Dayton. A história se repete?

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

O documentário A morte da Iugoslávia é uma demonstração paradigmática do profissionalismo da maior rede de TV do mundo para praticar aquilo para o qual foi criada: manipular os conflitos internacionais. Dividida em seis episódios, a série foi produzida imediatamente após a assinatura do Acordo de Dayton, em novembro de 1995. O vasto arquivo de imagens de vídeo, fotos e gravações de áudio, algumas delas inéditas; entrevistas exclusivas, filmagens de câmeras de segurança, das forças armadas, de cinegrafistas amadores e até produções por computação gráfica, como mapas geográficos, indicam que só uma verdadeira indústria da propaganda imperialista pode realizar algo desse tamanho.

O documentário apresenta as características tradicionais de um produto jornalístico, com entrevistas com os principais agentes da guerra na antiga Iugoslávia, difundindo diversos pontos de vista, partes investigativas, objetividade e imparcialidade (a priori), atualidade (uma vez que foi veiculado ainda no fervor das tensões imediatamente após a guerra). Entretanto, apesar de A morte da Iugoslávia aparentar ser um documentário imparcial, neutro, que não favorece nenhum lado do conflito, uma análise mais detalhada revela a manipulação. Algumas vezes tácita e outras vezes enfática, a tomada de posicionamento é feita tanto por meio da voice over como também pela seleção das falas dos entrevistados, da montagem, das imagens e da angulação, do direcionamento tomado em algumas partes do documentário.

O discurso do filme apresenta frequentemente os dirigentes sérvios, especialmente Slobodan Milosevic, como culpados pelas guerras. A responsabilidade pelo surgimento das tensões étnicas é colocada quase que exclusivamente sobre o líder sérvio. “O presidente sérvio, Slobodan Milosevic, foi o primeiro a inflamar o seu povo”, afirma a voice over no início do segundo episódio. Uma ilustração disso é a cena inicial do documentário. Ela mostra imagens aéreas de Belgrado, transmitidas pela TV iugoslava, onde uma multidão de sérvios se reúne para um comício de Milosevic, em 1988. Teclas de piano dão o tom de suspense e temor do ato.

A câmera posicionada de baixo para cima (contra-plongée) e seu discurso do alto do palanque apresentam Milosevic como o grande líder dos sérvios, inflamando seu nacionalismo para a batalha que virá, enquanto a massa de pessoas grita “Slobo, Slobo, Slobo”. Ao mesmo tempo, a voice over afirma que ele é acusado como responsável por todas as guerras na Iugoslávia, pelos quais foi absolvido mais tarde. Esses minutos iniciais servem como discurso persuasivo para apresentar Milosevic como culpado de antemão pelas atrocidades que serão relatadas ao longo do documentário. A partir daí, a tendência do público é ver Milosevic de forma preconceituosa e seus depoimentos não servirão para mais nada senão confirmar esses estereótipos.

Ao longo do documentário, as autoridades do governo central da Iugoslávia são vistas como as agressoras das outras repúblicas e dos outros grupos étnicos, mesmo que seja sutil essa representação. São os repressores, belicistas, manipuladores, instigadores, conspiradores, opressores.

Durante toda a série coloca-se os sérvios na posição de “vilões”, algumas vezes de forma branda, outras de forma mais enfática. Seus discursos nacionalistas inflamados são mostrados algumas vezes, mas isso não é feito em nenhum momento com os nacionalistas croatas ou bósnios, que também cometeram crimes. Os separatistas sérvios são extremistas, mas os croatas e bósnios não, apesar de suas autoridades envolvidas nas guerras serem ultranacionalistas e mesmo fascistas, como o presidente croata Franjo Tudjman. O documentário não questiona os interesses por trás da divisão da Iugoslávia.

O discurso do documentário também procura sempre ligar Milosevic aos grupos extremistas. Por exemplo, quando a voice over afirma que os servo-croatas queriam expulsar os croatas dos territórios em que eram maioria, para se unirem à Iugoslávia. “Para isso, aliados extremistas do presidente Milosevic se preparam para provocar um conflito entre sérvios e croatas.” Também fala em forças militares de Milosevic e autoridades extremistas próximas a Tudjman, presidente da Croácia.

Milosevic ainda é descrito como o comandante dos crimes cometidos pelas milícias servo-bósnias lideradas por Radovan Karadzic. O quarto episódio da série começa com palavras de defesa de Milosevic, falando que não apoia hostilidades. A forma como a declaração aparece, de repente, no início do episódio, passa a impressão de que ele está se defendendo de um crime que realmente cometeu. Aparecem imagens de destruição na Bósnia e a voice over afirma que o político sempre disse que não se envolveu nas atrocidades na Bósnia mas que as testemunhas contra ele dizem o contrário. Em outro momento, no quinto episódio, o documentário ressalta que Milosevic era “o homem por trás dos servo bósnios”. Mas a data descrita é abril de 1993, quando o líder iugoslavo já havia rompido com os extremistas de Karadzic, como foi constatado pelo Tribunal de Haia. Mesmo dois anos após esse rompimento, Milosevic ainda é tachado como “financiador” de Karadzic, no sexto episódio.

O que se entende é que Milosevic e Karadzic mantêm estreitas relações, o que leva a crer que o presidente iugoslavo esteve envolvido nos crimes do líder extremista. Além disso, muitas vezes os servo-bósnios são chamados apenas de sérvios, o que confunde a audiência e o público acaba imaginando que a Sérvia é a grande vilã, responsável pelos crimes dos servo-bósnios que, como observado, àquela altura atuavam independentes de Belgrado.

A Eslovênia, primeira república a se separar da Iugoslávia, é vista como uma região moderna, democrática, ocidentalizada, civilizada, onde há mais liberdade do que nas outras regiões da federação. O nacionalismo esloveno não aparece em ocasião alguma, seus dirigentes políticos são pacíficos opositores do autoritarismo de Belgrado e somente querem a independência de seu povo.

A Croácia, segunda república a declarar independência da Iugoslávia, também é apresentada como uma região próspera, democrática e liberal. O problema é que, segundo o documentário dá a entender, os croatas de origem sérvia queriam permanecer na Iugoslávia e então eles causaram as tensões.

De acordo com as palavras da narração, “as ameaças sérvias provocaram respostas do povo da Croácia”. Pelo que se entende, a minoria sérvia apoiada pelo governo iugoslavo de Milosevic foi a responsável pelo início dessa guerra, porque “Milosevic queria incendiar o resto da Croácia”, conforme narra a voice over. Em outra ocasião, o documentário afirma que as autoridades croatas “temiam que a Sérvia, maior república da Iugoslávia, os esmagasse”.

Em certos momentos, a voice over afirma que as ações do governo e do exército iugoslavos contaram com apoio da imprensa sérvia. No entanto, não fala que o noticiário imperialista do qual faz parte a BBC preparou a futura intervenção nos Bálcãs. E mais: o próprio discurso do documentário indica uma ineficiência da ONU no combate aos sérvios e servo-bósnios e sugere uma intervenção armada do Ocidente na região. Quando a intervenção da OTAN ocorre, o documentário não adota uma postura minimamente questionadora das possíveis consequências que essa ação teria para a população civil iugoslava.

A comunidade internacional, principalmente os EUA, é apresentada como mediadora diplomática. Em nenhum momento os interesses geopolíticos e econômicos nem as operações secretas por trás das negociações são questionados. A propina oferecida pelo primeiro-ministro da Itália ao presidente de Montenegro para que votasse pelo desmembramento da Iugoslávia não é tratada com a mínima preocupação.

Ao longo de toda a série, o Ocidente é retratado como civilizado e sua intervenção nos Bálcãs é para “botar ordem na casa”, porque os incivilizados iugoslavos não conseguem se entender. Os EUA são apresentados sempre como diplomáticos, democráticos, humanistas, conciliadores, agindo de boa-fé e tentam ensinar os bons modos aos bárbaros eslavos, principalmente aos sérvios.

Trinta anos depois, esse mesmo discurso da BBC se repete. A “ameaça russa”, essa barbárie eslava, contamina seus aliados da Europa Oriental. Dentre eles, o presidente sérvio Aleksandar Vucic, apresentado como um autocrata pró-russo, uma espécie de herdeiro de Milosevic. E os servo-bósnios seriam os responsáveis pelas tensões que ameaçam a volta da guerra na Bósnia, com Milorad Dodik sendo visto como sucessor de Karadzic pelos mais histéricos propagandistas do imperialismo. Como antes, são estes últimos que, no final das contas, estão pavimentando o caminho para a guerra.

]]>
Bosnian war propaganda resurgence: the last hurrah https://strategic-culture.su/news/2025/11/26/bosnian-war-propaganda-resurgence-the-last-hurrah/ Wed, 26 Nov 2025 14:25:52 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=889070 How does the Sarajevo “safari tourism” allegation stack up when examined with a reasonable degree of scepticism and the application of rigorous standards of proof?

Join us on TelegramTwitter, and VK.

Contact us: info@strategic-culture.su

Most were under the impression that the war in Bosnia was behind us. The conflict in the former Yugoslavia in the 1990s was characterised by the use of the crudest kind of propaganda, but it was undoubtedly in the Bosnian theatre that the crassness was the most pronounced.

It turns out however that for those who had politically benefitted from that war, or who think that they might still benefit a little more with an improvised replay of the propaganda techniques that were successful thirty years ago, the war in Bosnia remains the gift that keeps on giving.

Evidence of that is the intense media barrage, reminiscent of the 1990s, about alleged “Safari tourism” in the hills overlooking besieged Sarajevo. The story goes that wealthy psychopaths from Italy and other Western countries were paying enormous fees, running up to 100,000 euros in today’s money, eagerly collected by the Bosnian Serbs who held the hillside positions, for permission to shoot and kill defenceless civilians in the besieged city below.

The macabre “spirit cooking” dinners organised for the perverse pleasure and entertainment of the crème de la crème of Western elite circles, not to mention numerous other similar examples of depravity, make the Sarajevo allegation seems plausible, in principle at least. There are no moral factors on the side of this scenario’s Western perpetrators that would have prevented it from happening, assuming that the conditions were propitious.

That having been said, agreement that something could have happened is not an automatic confirmation that it actually did. Evidence is still needed to bridge the gap between a theoretical possibility and a demonstrated fact. For purveyors of propaganda, however, bridging that gap is not a major concern because their craft operates on emotional manipulation, not empirical proof. Their task is accomplished once they have successfully embedded in the public’s mind the subconscious impression they desired to implant there.

How does the Sarajevo “safari tourism” allegation stack up when examined with a reasonable degree of scepticism and the application of rigorous standards of proof? Like most propaganda constructions, it falls apart.

The first thing one notices that calls for extreme caution is that the alleged events occurred in the mid-1990s but are being brought to light and, it is claimed, investigated by the Milan Public Prosecutor’s Office only now, in 2025, more than thirty years later. The Bosnian war ended after the signing of the Dayton Peace Agreement in December of 1995 and soon thereafter conditions were sufficiently normalised in Bosnia and Herzegovina. There were no serious impediments to conducting war crimes investigations and numerous agencies and institutions did precisely that. Shooting safaris where the targets were human beings would be a crime against humanity of extraordinary gravity. A reasonable explanation is required why no police or judicial organs investigated these heinous allegations soon after those events are said to have happened, whilst witnesses could still be found with relative ease and, just as importantly, forensic evidence might still have been intact. That first and most obvious question is not even asked, let alone answered by anyone.

The other key unasked (and therefore also unanswered) question is about the source for these belated allegations. It is a documentary film “Sarajevo Safari,” released in 2022. We now come to the interesting part. The film was financed by Hasan Čengić, one of the founders of the Democratic Action Party of Bosnia’s war-time President Alija Izetbegović. Mr. Čengić therefore is by no means an impartial source. During the war he was one of the principal funds and arms procurers for Izetbegović. The film’s producer is the Slovenian film director Franci Zajc who during the conflict created numerous documentaries which uniformly presented only the Serbian side in an unfavourable light. Zajc also happens to be one of the only two supposedly percipient witnesses of this safari tale. The other alleged witness is Mr. Čengić himself who, however, is unavailable for cross examination because he passed away in 2021.

Some would argue that Zajc is a shady witness because of his extravagant claims that during the conflict in Bosnia he was an agent of Western intelligence agencies but that nevertheless the Serbs allowed, and in some versions even invited, him to observe these morbid proceedings. Why the Serbs would allow a hostile witness like Zajc to observe them in such a compromising situation is unexplained. Be that as it may, these are the only two ocular witnesses of the Sarajevo “tourist safari” events known so far. One of them claims and the other, Čengić, almost certainly did have intelligence connections. These are the exclusive sources for a sensational story that is making headlines in the collective West media and has even attracted the attention of one of the frequent contributors to this portal.

Yet even these scant sources for an event of major significance, if it is authentic, are not in complete harmony about an important detail of their story. Zajc has claimed that wealthy foreigners paid huge amounts of money to the besieging Serbs to shoot civilians and that they were provided with sniper weapons for that purpose by their Serbian hosts. Čengić on the other hand claimed before his death that foreigners were paying trifling fees for the morbid privilege and brought their own weapons.

But there are more problems with this affair. It is said that the Milan Public Prosecutor’s Office is conducting an investigation. That may well be the case. But the important question that anyone with legal training will immediately ask is what is the statute of limitations for murder in Italy? It happens to be 21 years. That means that if the imputed crime was committed more than twenty-one years before apprehension, even if the perpetrator were to be identified and linked to the crime he could not be prosecuted. The alleged offences date back to the mid-1990s, which means that the Italian statute of limitations has expired and nobody any longer can be brought to court to answer charges of sniping at civilian from the hills that surround Sarajevo. If the Prosecutor in Milan is indeed investigating, would he not be wasting his time?

If the motive were purely judicial, he certainly would be. But if the motive is predominantly political, not necessarily so.

Furthermore, even if statutory obstacles could be overcome, for instance by reclassifying the offence as a crime against humanity for which there is no statute of limitations instead of treating it as a simple murder under Italian law, there would still be a problem. For a conviction to be achieved under either indictment, beyond the necessity of personally identifying the shooters, which is the sine qua non, to actually convict them they would have to be directly linked to a lethal outcome on the ground. For an indictment to be viable, victims would have to be identified as well, almost thirty years after the fact. Shooting with a sniper weapon is not a crime unless it results in someone’s death. For culpability to be established, a forensic investigation would have to be conducted to determine for each imputed victim the cause and manner of death, and bullets which struck the victims would have to be provably traced to the weapons that were in the hands of the perpetrators at the time of shooting, almost thirty years ago. Does that seem like a feasible undertaking for the Milan Prosecutor, no matter how competent he may be? That is doubtful.

The media frenzy that has erupted around allegations of war-time tourist safaris on civilians in Sarajevo recalls the worst propaganda excesses of that conflict. Their most notable feature was that critical questions were not being asked and that few and largely unverified facts were force-fitted into a Procrustean propaganda matrix. When subjected to close scrutiny most of these claims almost always are found to be uncorroborated and spurious.

That certainly seems to be the case with the Sarajevo Safari story, regardless of the fact that the collective West media are having a field day expanding on it in endless and strikingly imaginary detail.

The Safari story will soon die a natural death once it is concluded that its political purpose has been achieved. The purpose is not to convict anyone because given the complete unavailability of any evidence, even under the most rigged trial conditions that would be nearly impossible. It is, rather, to create a sinister impression that would further discredit the Serbian entity in Bosnia, the Republika Srpska, for colluding with depraved individuals and facilitating their heinous behaviour in return for money. The successful dissemination of such an impression will serve as an additional argument for the liquidation of Republika Srpska and will indirectly validate other heinous allegations made at the expense of the Serbian side during the Bosnian conflict. That explains the timing.

As for the Milan Prosecutor’s Office, it will quietly drop its investigation for some specious bureaucratic reason that no one will ever question. And there on the legal level the matter will end. There will be no facts, only emotionally charged impressions.

]]>
Acordo de Dayton: manobra imperialista para preparar a destruição final da Iugoslávia https://strategic-culture.su/news/2025/11/24/acordo-dayton-manobra-imperialista-para-preparar-destruicao-final-iugoslavia/ Mon, 24 Nov 2025 15:54:57 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=889035 A Bósnia e Herzegovina tornou-se um Estado independente mas foi dividida em duas Entidades autônomas.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Segundo os dados do Centro de Documentação e Pesquisa, sediado em Sarajevo, na Guerra da Bósnia morreram cerca de 100 mil pessoas (66% bósnios étnicos, 25% de origem sérvia e 7,8% de origem croata) e houve o deslocamento de 2,2 milhões, sendo mais de 1 milhão de refugiados no exterior.

A Bósnia e Herzegovina tornou-se um Estado independente mas foi dividida em duas Entidades autônomas: além da Federação da Bósnia e Herzegovina, que reúne bósnios e croatas, com 51% do território nacional, foi reconhecida como Entidade a República Srpska que os servo-bósnios haviam declarado independente do Estado bósnio e que ficou com 49% do território do país.

No entanto, o Acordo de Dayton, assinado em 21 de novembro de 1995 e ratificado em 14 de dezembro do mesmo ano em Paris, não terminou com os conflitos bélicos nos Bálcãs. A Sérvia precisava ser destroçada ainda mais.

O Kosovo, província autônoma até meados da década de 1980, quando ainda pertencia à Iugoslávia Socialista, foi o palco dos confrontos no final dos anos 1990.

A população kosovar, composta 90% por albaneses étnicos, já havia experimentado tempos de agitação no início e no final da década de 1980. Em 1989, em meio a uma tensão e fortes distúrbios entre albaneses e sérvios, Milosevic, já o principal político da Iugoslávia, arrancou a autonomia outorgada ao Kosovo pela Constituição de 1974, e passou o controle do Kosovo e da Vojvodina para a Sérvia.

Com o clima de dissolução da República Socialista Federativa da Iugoslávia, o Kosovo proclamou-se independente em 1991, sendo, no entanto, reprimido pelas forças de Belgrado. Em 1996, começaram a ser fortemente organizados grupos separatistas armados e ataques terroristas contra o Estado iugoslavo, que agora era composto apenas pela Sérvia e Montenegro e que teve, em 1997, Milosevic eleito como presidente do país.

Segundo Noam Chomsky, o Exército de Libertação do Kosovo (ELK, principal força militar separatista kosovar) recebeu apoio financeiro e militar dos Estados Unidos. “Eles estavam sendo apoiados pela CIA naqueles meses”.

Com os confrontos ocorrendo entre as forças do Estado iugoslavo e as milícias kosovares, a OTAN, após algumas ameaças, iniciou os ataques para desmobilizar o exército sérvio, em 24 de março de 1999. Os bombardeios continuaram até o dia 10 de junho, quando Belgrado recuou dos ataques às forças kosovares. A OTAN não precisou de permissão nenhuma da ONU, evidenciando já àquela altura como as Nações Unidas não passam de uma ferramenta de dominação do imperialismo sobre o mundo, que agem ou não apenas conforme a conveniência das principais potências.

Os ataques da OTAN foram considerados pelo Ocidente como “ilegais mas legítimos”. Para Chomsky, “ilegal faz com que seja um crime de guerra. Mas eles disseram que isso foi legítimo porque era necessário parar o genocídio. E então veio a inversão usual da história”. Ele ainda critica o que foi chamado de genocídio feito pelos sérvios contra os albaneses do Kosovo: “Se aquilo é genocídio então o mundo inteiro está coberto de genocídios.”

Essa mesma “comunidade internacional” não reconhece a destruição de Gaza por Israel e o extermínio deliberado de ao menos 80 mil palestinos como genocídio. Pelo contrário, ela financia, arma e faz propaganda pelo genocídio de palestinos.

Após o final da guerra, o Kosovo foi administrado por quase oito anos como protetorado internacional e, em 2008, os países imperialistas o arrancaram da Sérvia. Contudo, a maioria das nações oprimidas do mundo, incluindo as da importância do BRICS, não reconhecem até hoje esse roubo de território: aquele território ainda é legitimamente sérvio. Apesar disso, parte das instituições internacionais segue os ditames imperialistas e permite que a Sérvia participe de forma desmembrada, como nos Jogos Olímpicos. Em 2006, o imperialismo também conseguiu separar Montenegro – um território sem nenhuma diferença nem verdadeira reivindicação nacional em relação à Sérvia.

A intervenção da OTAN na Iugoslávia teve como pretexto a “violação dos direitos humanos” e os “crimes contra a humanidade” cometidos pelas forças sérvias no Kosovo. Mas aquilo era uma farsa – vindo de quem patrocina verdadeiros crimes em Gaza. Como sempre, nada foi publicado na imprensa sobre os armamentos que utilizam urânio empobrecido, empregados pela Otan nos bombardeios à Iugoslávia.

Chomsky aponta como o verdadeiro motivo da intervenção da aliança ocidental na Iugoslávia as pretensões econômicas, em uma Europa Oriental que acabara de se inserir no sistema capitalista. A OTAN interveio porque a nação balcânica “não estava executando as reformas econômicas e sociais exigidas, isso significa que ela era o último lugar na Europa que não tinha se subordinado à série de programas neoliberais dos EUA, portanto ela teve de ser eliminada”.

Além da ONU (que só observou) e a da OTAN (que agiu na matança de sérvios), outro mecanismo imperialista foi utilizado para destruir a Iugoslávia. O Tribunal Penal Internacional não buscou a incriminação dos violadores ocidentais do direito internacional, mas de Milosevic, bode expiatório de todas as guerras balcânicas dos anos 90.

O ex-presidente sérvio foi levado ao Tribunal, em Haia, onde acabou falecendo durante o processo de seu julgamento, em 2006, sob condições suspeitas. Ele não chegou a ser objeto de veredicto. Em março de 2016, o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia considerou que não encontrou provas suficientes para condená-lo pela limpeza étnica na Bósnia, crime do qual foi acusado. Segundo o órgão (p. 1303):

No que diz respeito à evidência apresentada neste caso em relação a Slobodan Milosevic e sua filiação ao JCE [Joint Criminal Enterprise (associação criminosa)], a Câmara recorda que ele compartilhou e endossou o objetivo político do Acusado [Radovan Karadzic, líder radical dos servo-bósnios] e a liderança serva-bósnia para preservar a Iugoslávia e prevenir a separação ou independência da BiH [Bósnia e Herzegovina] e cooperou estreitamente com o Acusado durante esse período [1990-início de 1992]. A Câmara também recorda que Milosevic providenciou assistência na forma de pessoal, provisões e armamentos para os servo-bósnios durante o conflito. Contudo, baseado na evidência anterior, a Câmara, no que diz respeito aos interesses divergentes que emergiram entre os servo bósnios e as lideranças sérvias durante o conflito e em particular, as repetidas críticas de Milosevic e sua desaprovação das políticas e decisões tomadas pelo Acusado e a liderança serva-bósnia, a Câmara não está satisfeita de que houve suficiente evidência apresentada neste caso para constatar que Slobodan Milosevic concordou com o plano comum.

 Importantes observações feitas sobre Milosevic também se encontram nas páginas 1035, 1241-1245,  1599-1599, 1896, 1903 e nota de rodapé 16612 (p. 2022) do mesmo documento.

Por outro lado, o ex-presidente croata Franjo Tudjman recebeu veredicto post mortem (ele faleceu em 1999) por ser corresponsável por crimes praticados na guerra. Quando da retomada da Krajina, em 1995, além da limpeza étnica de 150 mil servo-croatas, as tropas croatas atearam fogo nas aldeias sérvias e assassinaram centenas de idosos que permaneceram na cidade de Knin. Após esses acontecimentos, Tudjman afirmou à BBC: “Eu pensei que 70% dos sérvios permaneceriam. Eles veriam que a democracia croata protege os direitos civis. Os sérvios são os únicos culpados.”

Durante esse período de guerra, até 1999, a intolerância étnica foi o pretexto para a extrema violência que tomou conta da região. Foram contabilizadas, segundo as estimativas do Centro Internacional para a Justiça Transicional, mais de 140 mil mortes e 4 milhões de desalojados.

As guerras na antiga Iugoslávia estão muito longe de serem exclusivas da “barbárie de povos primitivos e não civilizados”, como prega a propaganda imperialista. Na verdade, esse argumento nunca passou de desculpa para manipular os conflitos étnicos na região a fim de dividi-la para conquistá-la e sugar seus recursos.

Para Jean-Arnault Dérens, essa foi a justificativa para dizer que os povos dos Bálcãs são os culpados pelo desencadeamento da 1ª Guerra Mundial: A Segunda Guerra Mundial, por sua vez, teria sido apenas uma consequência da primeira, e aí residiria a causa de todos os problemas da Europa no século XX. […] Retiram-se da leitura histórica, assim, ‘detalhes’ pouco importantes, como os choques imperialistas, o colonialismo, o fascismo, o nazismo. A fonte primeira de todos os males do século XX foi finalmente encontrada: é essa terra “ensopada de sangue” que constitui os Bálcãs.”

O autor também lembra que as alianças entre as potências na 1ª Guerra forçaram os povos dos Bálcãs a lutarem entre si: “Contudo, foi nas trincheiras da guerra de 1914 que, pela primeira vez na história, os jovens croatas e os jovens sérvios receberam ordens de matarem-se entre si: os primeiros vestiam o uniforme austro-húngaro, enquanto o governo dos segundos era aliado da França e da Grã-Bretanha.”

]]>
A carnificina nos Bálcãs foi apoiada pela humanitária «comunidade internacional» https://strategic-culture.su/news/2025/11/18/a-carnificina-nos-balcas-foi-apoiada-pela-humanitaria-comunidade-internacional/ Tue, 18 Nov 2025 16:00:42 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=888942 Os anos 90 foram o auge da globalização e da propaganda hipócrita do imperialismo em torno da “comunidade internacional”, uma espécie de entidade sobrenatural homogênea que atua para o bem das pessoas do mundo todo.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Os anos 90 foram o auge da globalização e da propaganda hipócrita do imperialismo em torno da “comunidade internacional”, uma espécie de entidade sobrenatural homogênea que atua para o bem das pessoas do mundo todo. Até hoje os jornais noticiam os feitos dessa “comunidade internacional”. Artigos do tipo “Comunidade internacional condena ataques terroristas do Hamas” ou “Comunidade internacional não reconhece eleições na Venezuela” são comuns. Essa “comunidade internacional” não é nada mais nada menos que os vampiros que sugam o sangue da raça humana – e seus vassalos, para aparentar uma grande quantidade de nações.

Enquanto toda a carnificina ocorria nos Bálcãs, a “comunidade internacional”, garantidora da paz e dos direitos humanos no mundo, não fez nada para evitar os conflitos. Só depois de mortes incontáveis de civis sérvios, croatas e eslovenos é que a “comunidade internacional” mediou o encerramento das primeiras guerras. A Força de Proteção das Nações Unidas (UNPROFOR), criada em 1992 pelo Conselho de Segurança, resolveu enviar 14 mil homens para Sarajevo, antes da guerra que teve nessa cidade os seus piores momentos.

Seguindo o exemplo da Eslovênia e da Croácia, a Bósnia (que tinha 4,3 milhões de habitantes, dos quais 44% eram muçulmanos, 31% sérvios e 17% croatas) foi a próxima a se separar da Iugoslávia pela luta armada. Sua independência foi aprovada em plebiscito por croatas e muçulmanos em 29 de fevereiro e 1º de março de 1992, mas os sérvios da Bósnia boicotaram as duas votações e criaram sua própria república, na região leste de Sarajevo.

Eles foram apoiados pelas forças militares iugoslavas, e começaram a atacar a partir das montanhas, no mesmo dia em que a Comunidade Europeia reconheceu a Bósnia como país independente. Nos dias anteriores, já haviam ocorrido confrontos violentos entre bósnios e servo-bósnios. Inclusive a população civil bósnia havia ido às ruas se manifestar pela queda do governo e a união da Iugoslávia novamente socialista.

Começava assim o cerco de Sarajevo, que durou quase quatro anos: de 5 de abril de 1992 a 29 de fevereiro de 1996. Estima-se que o número de vítimas fatais do cerco tenha chegado a mais de 14 mil, metade, pelo menos, civis, das quais 1.500 crianças.

Após pouco tempo de união entre croatas-bósnios e muçulmanos, eles passaram a ser inimigos (com o apoio militar de Zagreb para os croatas-bósnios), assim como milícias muçulmanas passaram a atuar contra o próprio governo bósnio, muçulmano. Os servo-bósnios, por meio das milícias ultranacionalistas, também começaram a enviar os muçulmanos para campos de prisioneiros e centros de estupros coletivos. A imprensa divulgava fotografias comparando os prisioneiros com os judeus nos campos de concentração nazistas. No entanto, os servo-bósnios não foram os únicos a cometer tais barbaridades: os croatas-bósnios também mantinham muçulmanos em campos de concentração.

Um dos campos de extermínio mantidos pelos servo-bósnios foi o de Omarska, no município de Prijedor, cujo destino da maioria dos 5.400 croatas bósnios e muçulmanos mortos ou desaparecidos nessa cidade foi decidido ali. Em Srebrenica, um enclave muçulmano localizado dentro da República Srpska (região de maioria sérvia que decretou independência da Bósnia), 8 mil bósnios muçulmanos do sexo masculino foram assassinados.

Mas os muçulmanos também praticaram massacres e limpezas étnicas, em Vitez e na Herzegovina, além de destruição de propriedades e igrejas de sérvios e croatas.

Os croatas, por outro lado, mesmo depois de terminada oficialmente a guerra dentro da Croácia, continuaram combatendo os sérvios que resistiam na Krajina. O exército croata contou com a ajuda do governo dos Estados Unidos para reconquistar a região em maio de 1995 e realizar a maior limpeza étnica da guerra: 150 mil sérvios étnicos foram obrigados a se deslocar para a Sérvia. Essa operação fez parte dos esforços dos EUA para reconciliar croatas e bósnios, que contou também com o cessar-fogo bilateral e a formação, em março de 1994, da Federação da Bósnia e Herzegovina, entidade que reúne bósnios e croatas dentro do Estado bósnio até os dias atuais.

A intervenção dos EUA e da “comunidade internacional” já vinha sendo realizada aos poucos durante a Guerra da Bósnia, sobretudo na organização de planos para uma nova divisão territorial sob o controle do imperialismo.

Em agosto de 1995, a OTAN interveio diretamente no conflito, bombardeando as forças servo-bósnias que cercavam Sarajevo. Então os milicianos começaram a retirada, também por pressão das Nações Unidas. Finalmente, os Acordos de Dayton, que começaram nos EUA com todas as partes envolvidas, foram assinados em dezembro de 1995 em Paris, iniciando a retirada militar sérvia da Bósnia.

Entretanto, houve também “apoio encoberto pelo aparelho militar e de inteligência dos EUA” a organizações terroristas islâmicas na Bósnia, de acordo com Michel Chossudovsky. Um relatório de 1997 do Comitê do Partido Republicano do Congresso dos EUA revelou a colaboração entre militares estadunidenses e terroristas na ocasião.

Já em março de 1991, durante a separação da Croácia, o ministro da Defesa da Iugoslávia, general Veljko Kadijevic, havia denunciado que potências estrangeiras estavam por trás da desintegração do país: “Um insidioso plano tem sido elaborado para destruir a Iugoslávia. A primeira etapa é a guerra civil. A segunda é a intervenção estrangeira. Então regimes fantoches serão instalados por toda a Iugoslávia.” Uma premonição que se concretizou. Não era muito difícil de prever tal desfecho…

“De fato, durante a guerra na Bósnia inspectores de armamento americanos estavam trabalhando com operativos da Al Qaeda, trazendo grandes quantidades de armas para o Exército Muçulmano Bósnio”, lembra Chossudovsky, acrescentando que também houve ligações entre unidades militares de inteligência dos EUA e a Al Qaeda no Kosovo (1998-99) e na Macedônia (2001).

Mike Springmann, um dos ex-chefes da CIA, revelou no início de 2016 à Sputnik que combatentes treinados pelos EUA atuaram na Iugoslávia. Robert Baer, ex-agente da CIA que trabalhou na Iugoslávia entre 1991 e 1994, também fez fortes revelações à mídia bósnia. Segundo declarou ao site Web Tribune, em janeiro de 1991 ele desembarcou na Bósnia junto com outros três agentes: “Nossa tarefa era dirigir a atenção e espalhar o pânico entre os políticos na Bósnia, nós enchemos suas mentes com os ataques sérvios [de um suposto grupo radical, que na verdade nunca existiu]”. Logo depois, Baer foi para a Eslovênia, após este país ter declarado independência da Iugoslávia.

“Nós demos dinheiro, alguns milhões de dólares, para financiar várias ONGs, partidos de oposição e vários políticos que inflamaram o ódio”, declarou. Ele denunciou que conselheiros e membros do governo da Iugoslávia, além de generais sérvios, jornalistas e formações militares foram pagos pela CIA em esquemas de propaganda para destruir a Iugoslávia. O ex-agente citou os então presidentes Franjo Tudjman, da Croácia e Alija Izetbegovic, da Bósnia, e Stipe Mesic, dirigente croata que mais tarde assumiu a presidência de seu país.

]]>
In Serbia, a mother challenges the system https://strategic-culture.su/news/2025/11/16/in-serbia-a-mother-challenges-the-system/ Sun, 16 Nov 2025 09:01:58 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=888889 The crisis that is convulsing Serbia is multi-level, writes Stephen Karganovic.

Join us on TelegramTwitter, and VK.

Contact us: info@strategic-culture.su

It is little wonder that from her Olympian promontory, the Venezuelan Nobel Prize laureate, señora Maria Corina Machado, has missed a poignant spectacle unfolding in Belgrade. There, a desperate mother Mrs. Dijana Hrka for over ten days has been hunger striking in the proximity of Serbia’s parliament building. After a year of foot-dragging and inaction by the authorities, Mrs. Hrka is putting her life on the line to demand accountability for the death of her son Stefan in the collapse of the concrete canopy at the Novi Sad railway station. On 1 November 2024 the shoddily renovated structure collapsed, killing sixteen people and sparking in Serbia a social rebellion of hitherto unimaginable scope and intensity. Whilst señora Machado is using her newly acquired notoriety to enthusiastically invite foreign predators to help themselves to Venezuela’s vast resources in return for installing her as their next vassal in her country, Mrs. Hrka withers slowly in her tent, surrounded by a protective cordon of Serbian war veterans and concerned citizens.

Cornered by leaderless protests that have paralysed the country, Serbia’s Batista regime has responded with incredibly inept measures that in addition to students and young people had the arguably unintended consequence of successfully alienating other strata of society as well. The illegal paramilitary encampment of the regime’s menacing Tonton Macoutes militia still stands between the parliament building and the Presidency, in the heart of Belgrade. It continues to block traffic in one of the city’s busiest thoroughfares, at the same time sending the fully intended intimidating message to the citizenry. The thugs are apparently ensconced there with official blessing and they are being protected instead of dispersed by the police. Denizens of the encampment have been video-recorded whilst receiving daily remuneration for their mercenary services.

At the same time, the authorities are targeting and subjecting to merciless denigration and harassment anyone who is deemed a dissenter. The celebrated tennis player Novak Djoković, who just achieved the one hundred and first title of his career, and who has publicly endorsed the student movement, calling for snap elections and accountability for the corruption which precipitated the Novi Sad tragedy, was disdainfully dismissed by the director of the Informer media network Dragan Vučićević, the Julius Streicher of the Serbian regime, as a “failed tennis player.” Serbian basketball champion Vladimir Štimac was arrested twice on the spurious charge, which has now become standard feature in the regime’s prosecutorial repertoire, of “attempting to undermine the constitutional order.” Businessman Milomir Janićijević, who made his fleet of busses available to the students to ferry them to their protest events, has seen his vehicles confiscated by the authorities for such grave and indisputably non-political infractions as malfunctioning blinkers and inoperative windshield wipers. Since his livelihood is now on the verge of being destroyed Janićijević has also announced a hunger strike to seek redress for his grievances. Novi Sad city councilman Miša Bačulov, an outspoken critic of the regime, has been accused absurdly of being the saboteur who caused the deadly collapse of the concrete canopy. With a straight face the regime media have accused him of directing electromagnetic pulses from his mobile telephone device at the railway station, with deadly effect…

Against this background of officially generated lunacy, the Serbian Batista regime is seeking to consolidate foreign support by openly reorienting its policies toward NATO and the collective West, abandoning any remaining pretense of neutrality. The regime is caving in to every major demand of the collective West.

  • The until recently vehemently rejected option of imposing sanctions on Russia is now being floated as a reasonable possibility and an inescapable expression of solidarity with the collective West and the European Union, into which the ruling elite are determined to enlist Serbia. The new regime party line, articulated by Batista himself, is that “the government has the authority to amend the decision” not to impose sanctions, i.e. that it can decide to impose them after all. The policy reversal was announced in the presence of the European Union ambassador Andreas von Beckerath right after the ambassador presented Batista with the European Commission’s rather critical annual report on Serbia.
  • The crawling recognition of NATO occupied Kosovo, a key demand of the regime’s Western sponsors, has been accelerated further by the official announcement that in the Spring of 2026 a full-fledged system of border control will be in place between “Kosovo” and the “unoccupied” Vichy part of Serbia, with a visa requirement for everyone passing through frontier checkpoints.
  • As a gesture of subservience to the agenda of its collective West sponsors, the Serbian regime has agreed to establish on Serbian territory camps to accommodate migrants who have been expelled from Great Britain and the EU. Ominously for the domestic population, Serbia has signed with Ghana what amounts to a population replacement scheme that provides for the arrival in Serbia of 200,000 Ghanian workers to “boost” the allegedly labour defficient Serbian economy. That agreement flies in the face of the fact that according to government statistics nearly 300,000 Serbs are unemployed and that in the first quarter of 2025 joblessness had risen to a record high of 9,1%. The real figures are probably considerably higher.
  • In disregard of Russian objections, the Serbian regime has also taken radical steps to implement collective West policy that all vassals must join forces to supply the Ukrainian neo-Nazi regime with arms and ammunition. After a brief and deceptive halt in arms exports to Ukraine that were conducted through third parties, the Serbian regime has now unapologetically resumed that activity, openly stating that it does not care what the ultimate destination of its arms shipments will be. It has even boasted that about 93% of all regional assistance to Ukraine has originated from Serbia, which is “more than the entire Balkan region combined” according to the speaker of the Serbian parliament during her recent visit to Kiev.
  • Serbia’s semi-colonial status has also been confirmed by several arrangements that no sovereign country would enter into. A conspicuous and currently the most controversial example is the ninety-nine-year concession of the iconic army general staff building in central Belgrade, devastated by a direct hit during the NATO bombing in 1999. For the humiliating consideration of $2200, the beneficiary is the Kushner real estate development organisation which is planning to build a luxury hotel on this prime real estate site. It does not require a rocket scientist to decipher Batista’s motive for enabling this giveaway deal. It is of course to ingratiate himself with the concessionaire’s powerful father-in-law.
  • As further evidence of Serbia’s Zanzibar-like protectorate status, Sweden will be put in charge of training government officials “to increase their efficiency”, Germany will be producing the biometric passports Serbian citizens will be using, Great Britain has acquired and will be operating Serbia’s optic internet communication system, the U.S. are developing the 5G communications network, whilst the European Institute of Innovation and Technology [EIT] will take control of Serbian innovations, presumably promoting whatever may be of benefit to the EU and making sure to bury innovations that in some field of endeavour might actually give an edge to Serbia.

The crisis that is convulsing Serbia is multi-level. The social protests spearheaded by students have emerged as one of its significant yet in all likelihood ultimately superficial and ephemeral manifestations. Moral victories, of which the students and now also the hunger striking Mrs. Dijana Hrka have scored many over the past year, are exhilarating but do not produce coherent and enduring results in the political arena. They must be protected, to paraphrase the amoral Churchill, by the bodyguard of a well-articulated political programme and propelled by a suitably ruthless and professionally organised structure. The Serbian freedom fighters – we can confidently use that expression to describe them – lack both.

Credit is nevertheless due to Serbia’s youth, and the elders who have often hesitantly come over to their side, for at least temporarily upsetting the applecart of the professional players who are used to their schemes unfolding seamlessly and who had been in the game since long before most of the youngsters had been born. The professionals are now compelled to deal with an unexpected and for them insanely annoying bump in the road. It is a virtual certainty that since they are facing amateurs they will figure out how to bypass it. But it will be fascinating to watch just how they go about it.

]]>
A secessão da Croácia e da Eslovênia: prelúdio para a Guerra da Bósnia https://strategic-culture.su/news/2025/11/15/a-secessao-da-croacia-e-da-eslovenia-preludio-para-a-guerra-da-bosnia/ Sat, 15 Nov 2025 15:27:58 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=888887 Este artigo recorda o processo de separação da Croácia e da Eslovênia da Federação Iugoslava como preparação para a independência da Bósnia, um golpe duríssimo contra a união dos eslavos do sul.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Exatos 30 anos depois do Acordo de Dayton que encerrou a Guerra da Bósnia, este artigo recorda o processo de separação da Croácia e da Eslovênia da Federação Iugoslava como preparação para a independência da Bósnia, um golpe duríssimo contra a união dos eslavos do sul.

No final dos anos 80, diante do apodrecimento dos regimes burocráticos do leste europeu, elementos capitalistas e fascistas souberam se aproveitar da situação para, em conluio com o imperialismo, transformar os Estados Operários implodidos em nações capitalistas sob o total controle dos monopólios.

Na Iugoslávia, esses elementos, sobretudo das de regiões não sérvias (mais distantes do aparelho do Estado), atuavam clandestinamente para usar a crise econômica como justificativa para implementar reformas que iriam no sentido de acabar com o controle do Estado pela burocracia originada da classe operária e entregá-lo à burguesia. Contaram com a aliança – mais ainda, com a liderança –, para esse empreendimento, dos próprios burocratas do Estado iugoslavo, a começar pelos croatas e eslovenos. Eles encabeçaram as reformas que iniciaram o processo de separação do resto do país. Finalmente, em 25 de junho de 1991, seis meses depois de um referendo, a Eslovênia declarou sua independência. No mesmo dia, a Croácia fez o mesmo.

O governo central da Iugoslávia não reconheceu as separações. Slobodan Milosevic, ex-presidente da Liga dos Comunistas da Sérvia e eleito presidente da república da Sérvia em 1989, representava um setor da burocracia que pretendia manter o controle do Estado centralizado na Sérvia. Como essa estratégia ia ao encontro dos interesses das massas, que viam o resultado das privatizações em outros países da Europa Oriental e não queriam o desmantelamento das conquistas da revolução da década de 1940, Milosevic obteve grande popularidade dentro da Sérvia e sobretudo entre os sérvios das outras repúblicas autônomas.

A guerra na Eslovênia começou quando o Exército Popular Iugoslavo moveu seus homens para recuperar suas posições retiradas pelos eslovenos nas fronteiras com a Itália e a Áustria. No entanto, dez dias depois, um cessar-fogo acordado junto à Comunidade Europeia pôs fim às hostilidades. Nos dez dias de guerra, 45 eslovenos morreram, com número maior de vítimas do lado do exército iugoslavo.

Para não correr mais riscos de perda do controle político, Milosevic adotou a posição de focar na união dos sérvios de toda a Iugoslávia. Assim, a Sérvia acabou recusando a tentativa da Federação de intervir na Eslovênia para estabelecer a ordem, pois a nova república autoproclamada quase não tinha sérvios vivendo em seu território, apesar de uma manifestação sérvia a favor da união da Iugoslávia ter sido reprimida pela polícia eslovena menos de dois anos antes.

Na Croácia, a situação tornou-se muito mais complicada. Dos 4,7 milhões de habitantes na época, 581 mil (12,2%) eram sérvios. Desde 1990 ocorriam tensões armadas envolvendo a rebelde Croácia e a Iugoslávia. Com o conhecimento público de que a burocracia croata pretendia se separar da federação, não se reconhecendo mais parte da Iugoslávia, os habitantes sérvios da Croácia resolveram não reconhecer o governo croata como seu. Em agosto desse mesmo ano, a Krajina, habitada majoritariamente por sérvios, proclamou-se região autônoma e pretendia se unir aos sérvios das outras regiões da Iugoslávia.

A minoria sérvia da Croácia temia uma imensa repressão pelo novo governo, pois ainda lembrava dos massacres perpetrados pelos ustashe na 2ª Guerra. O temor era justificado ainda mais porque o presidente do país era o notório extremista Franjo Tudjman, quem, em 1989, lançara livro negando o genocídio da milícia fascista contra os sérvios e judeus, e que depois destruiu um monumento às vítimas do fascismo.

O governo croata, para frear o impulso separatista dos sérvios, tentou reprimi-los. No entanto, o exército iugoslavo interveio, pressionado principalmente pela burocracia sérvia de Belgrado. Começava mais uma guerra, que durou seis meses, sendo encerrada por um acordo em janeiro de 1992. Os pontos mais importantes desta guerra foram os cercos de Vukovar e Dubrovnik e a constituição de milícias fascistas, além dos primeiros sinais de uma intervenção mais evidente da chamada “comunidade internacional” pelo desmembramento da Iugoslávia.

Vukovar, com 47% dos habitantes croatas e 32% sérvios, foi alvo de um cerco do exército iugoslavo que durou três meses, com a intenção de proteger os habitantes sérvios. Mas o que se viu, ao término do cerco, em novembro de 1991, foi a “primeira grande ‘limpeza étnica’ realizada pelos sérvios” nas guerras da Iugoslávia: 31 mil croatas deportados, além de centenas de mortos, entre civis e guardas (a Croácia ainda não tinha exército).

Por outro lado, Dubrovnik, que não tinha quase nenhum habitante sérvio, ficou sitiada durante oito meses pelas tropas iugoslavas, até maio de 1992. O saldo final de 88 civis, 94 combatentes croatas e 165 soldados iugoslavos mortos não foi dos mais negativos, mas 15 mil pessoas foram obrigadas a se deslocar para a cidade a partir das regiões próximas, que também foram atacadas, e depois para locais mais distantes e seguros.

As guerras dos anos 1990 nas ex-repúblicas iugoslavas viram também o surgimento de diversas milícias criminosas e fascistas. Como citado acima, a Croácia, assim como as demais repúblicas que se separaram, de início não tinham exército próprio. As forças oficiais que existiam eram as polícias que, com a guerra, tornaram-se guardas nacionais. Os partidos políticos, como a União Democrática Croata (HDZ) de Franjo Tudjman, também tinham as suas milícias. Facções criminosas também formavam sua milícia para cometer atos de banditismo, roubo e contrabando, aproveitando-se do clima de caos generalizado.

No próximo artigo, veremos como o aparato estatal em formação ou em reformulação nas repúblicas iugoslavas atuou em conjunto com milícias fascistas e criminosas nos crimes que depois foram atribuídos pelo imperialismo apenas aos sérvios – e para os quais o financiamento, armamento, treinamento e encobrimento diplomático do próprio imperialismo foi um fator determinante.

]]>
Sarajevo, infamia italiana https://strategic-culture.su/news/2025/11/14/sarajevo-infamia-italiana/ Fri, 14 Nov 2025 16:30:25 +0000 https://strategic-culture.su/?post_type=article&p=888857 Trent’anni dopo gli orrori della guerra dei Balcani, l’Occidente si trova immerso in un’altra guerra europea, quella tra Russia e Ucraina. Anche qui la linea tra informazione, propaganda e censura si fa sottile. E come negli anni ’90, il rischio è di ridurre il conflitto a uno scontro morale tra buoni e cattivi, semplificando la complessità e rimuovendo le ambiguità.

Segue nostro Telegram.

Cecchini e Safari

A trent’anni dalla fine della guerra in Bosnia, una nuova inchiesta giudiziaria riporta alla luce uno degli episodi più oscuri e moralmente intollerabili del conflitto balcanico: quello dei cosiddetti “turisti del cecchinaggio”, stranieri — tra cui alcuni italiani — che avrebbero pagato somme ingenti per partecipare, dalle colline attorno a Sarajevo, alla caccia all’uomo contro la popolazione civile.

A indagare oggi è la procura di Milano, dopo la denuncia presentata dal giornalista e scrittore Ezio Gavazzeni, da anni impegnato in inchieste su terrorismo e criminalità organizzata. Secondo le sue ricerche, condensate in un dossier di 17 pagine, durante l’assedio di Sarajevo — uno degli episodi più lunghi e sanguinosi della dissoluzione jugoslava — cittadini facoltosi di diversi Paesi avrebbero potuto “acquistare” l’esperienza di sparare contro uomini, donne e bambini. Un macabro gioco di morte, pagato in denaro e giustificato da un’ideologia di forza e impunità.

Le prime testimonianze, raccolte all’epoca da reporter di guerra e confermate oggi da un ex ufficiale dell’intelligence bosniaca, parlano di viaggi organizzati attraverso Trieste, con collegamenti diretti verso le alture che circondavano Sarajevo. Secondo le rivelazioni, il servizio segreto militare italiano, il SISMI, sarebbe stato informato dell’esistenza di questi “safari umani” già all’inizio del 1994, dopo che l’intelligence bosniaca aveva scoperto l’orrore mesi prima. La risposta, riporta l’agenzia Ansa, fu: “Abbiamo messo fine a tutto, non ci saranno più safari”. E in effetti, due o tre mesi dopo, gli episodi cessarono. Ma la vergogna rimase, sepolta nel silenzio.

Chiunque abbia coperto la guerra di Bosnia sa che l’assedio di Sarajevo — dal 1992 al 1996 — fu qualcosa di più di una battaglia militare: fu una crudeltà sistematica contro una città simbolo della convivenza multietnica. Oltre 11.000 civili furono uccisi, di cui 1.600 bambini. La vita quotidiana era scandita dal suono dei colpi di mortaio e dal terrore dei cecchini. Bastava attraversare una strada per rischiare di morire.

Eppure, l’esistenza di “volontari” e “ospiti” stranieri tra i tiratori non era affatto un mistero. Già nel 1995, nelle cronache di Ezio Mauro, Bernardo Valli, Ettore Mo e di altri inviati italiani, si accennava alla presenza di gruppi di “avventurieri” accanto alle milizie serbo-bosniache. L’allora corrispondente da Sarajevo scriveva: “A Grbavica, dove il cecchinaggio dei cetnici e la partecipazione venatoria internazionale non vengono nascosti ma ostentati dalla televisione di Karadžić, fra i cecchini c’è anche una squadra di greci decorati pubblicamente, e il caso di un volontario giapponese”.

Tra i nomi più noti, quello dello scrittore e politico russo Eduard Limonov, ripreso dalle telecamere mentre sparava con una mitragliatrice pesante al fianco di Radovan Karadžić, poi condannato per genocidio all’Aia. Limonov, che non pagò per partecipare, dichiarò anzi ammirazione per il “coraggio serbo” e disse: “Noi russi dovremmo prendere esempio da voi”. Un elogio del cinismo elevato a estetica, come se la crudeltà potesse diventare gesto politico.

 Tra pacifismo e indifferenza

Ma ciò che più colpisce, allora come oggi, non è solo la brutalità dei fatti, bensì la reazione — o meglio, l’assenza di reazione — del mondo che li guardava. Mentre Sarajevo viveva quattro anni di fame, bombardamenti e cecchini, in gran parte dell’Occidente il dibattito era paralizzato da un pacifismo sterile, incapace di distinguere tra intervento umanitario e aggressione militare.

“Una sinistra coerente — scriveva allora un inviato — avrebbe dovuto incatenarsi nelle piazze non per protestare contro ogni uso della forza, ma per esigere un intervento delle Nazioni Unite e della NATO in difesa dei cittadini bosniaci. Invece si preferì l’inerzia, in nome della neutralità.” La stessa neutralità che permise, poco dopo, il massacro di Srebrenica.

Il caso dei “turisti del massacro” non è dunque solo un episodio di barbarie privata. È anche lo specchio di un clima politico e morale in cui l’orrore poteva convivere con l’indifferenza. Non a caso, Gavazzeni osserva che “tutti sapevano”, ma pochi vollero davvero vedere. Come se la guerra balcanica, pur così vicina geograficamente, restasse lontana nella coscienza europea.

A rendere più inquietante la vicenda è il modo in cui è riaffiorata. Non da un’indagine istituzionale, ma dall’iniziativa di un giornalista che, dopo aver visto il documentario Sarajevo Safari del regista sloveno Miran Zupanič nel 2022, ha deciso di tornare a scavare. Nel film, diversi testimoni bosniaci descrivono la presenza di “ospiti stranieri” che, a pagamento, venivano portati in postazioni di tiro per sparare sui civili. Le nazionalità menzionate includono americani, russi e italiani.

Gavazzeni, colpito dalle coincidenze con le cronache di trent’anni prima, ha raccolto nuovi elementi e li ha consegnati alla magistratura milanese. Oggi il pubblico ministero Alessandro Gobbis, esperto di terrorismo internazionale, sta valutando la possibilità di procedere per omicidio. Un’impresa difficilissima, a distanza di decenni, ma moralmente necessaria.

Eppure, anche di fronte a un’indagine formale, riaffiorano dubbi e negazioni. Ex militari britannici che servirono a Sarajevo negli anni ’90, interpellati dalla BBC, hanno definito la storia “una leggenda urbana”, sostenendo che sarebbe stato logisticamente impossibile portare stranieri a sparare tra le linee serbe, a causa dei numerosi posti di blocco. Ma questa prudenza anglosassone — tipica di chi preferisce non scomodare la propria coscienza — stride con la quantità di testimonianze raccolte in loco e con le stesse parole dei reporter che vissero l’assedio.

L’eredità morale del conflitto

L’inchiesta milanese non cambierà il corso della storia. Ma riapre una ferita nella memoria europea: quella dell’ipocrisia morale che accompagna la guerra quando avviene “troppo vicino per ignorarla, ma troppo scomoda per affrontarla”. La Bosnia fu il primo grande banco di prova dell’Europa post-Guerra fredda, e fallì miseramente. Oggi, rievocare i “turisti del massacro” significa chiedersi non solo chi sparò, ma chi guardò altrove.

Dietro la mostruosità dei “safari umani” si nasconde un problema più profondo: la fascinazione per la violenza, la normalizzazione della crudeltà, la spettacolarizzazione della guerra. Quell’oscuro desiderio di vedere — o perfino partecipare — al potere di vita e di morte è lo stesso che, in forma mediatica, anima oggi la guerra come intrattenimento: la conta dei droni, le dirette dai fronti, i video virali dei bombardamenti. È cambiata la tecnologia, non l’immaginario.

Trent’anni dopo Sarajevo, l’Occidente si trova immerso in un’altra guerra europea, quella tra Russia e Ucraina. Anche qui la linea tra informazione, propaganda e censura si fa sottile. E come negli anni ’90, il rischio è di ridurre il conflitto a uno scontro morale tra buoni e cattivi, semplificando la complessità e rimuovendo le ambiguità.

Oggi non servono più le colline per sparare. Si spara con le parole, con i media, con le campagne di disinformazione e di censura reciproca. La stessa russofobia che pervade l’Occidente — e che porta a cancellare concerti, mostre e libri — nasce da un identico meccanismo di esclusione morale: il bisogno di purificare lo spazio pubblico da tutto ciò che disturba la narrazione ufficiale.

L’orrore dei “turisti del cecchinaggio” di Sarajevo ci parla dunque anche di questo: di quanto sia fragile la linea che separa la condanna dalla complicità, la libertà dalla censura, la verità dalla propaganda.

L’inchiesta di Milano, probabilmente, non produrrà condanne. Troppo tempo è passato, troppi documenti sono scomparsi, troppe responsabilità si sono dissolte. Ma ha già ottenuto un risultato essenziale: costringerci a guardare di nuovo, senza filtri, l’abisso morale della guerra.

“È la stessa indifferenza che ieri lasciava morire Sarajevo e oggi si indigna solo a intermittenza”, dice Gavazzeni. Perché ricordare non è solo un atto di pietà verso le vittime, ma un esercizio di responsabilità verso il presente.

I turisti del massacro non appartengono solo al passato. Sono il simbolo di una civiltà che, pur dichiarandosi libera e democratica, continua a convivere con il proprio lato oscuro — quello che trasforma il dolore altrui in spettacolo, la crudeltà in curiosità, la guerra in turismo. E finché questo sguardo non cambierà, la storia di Sarajevo non smetterà di riguardarci.

]]>